A Polícia Federal concluiu o primeiro inquérito da Operação Sem Desconto e apontou que parte do dinheiro descontado sem autorização de aposentados e pensionistas do INSS foi lavada em empresas de fachada instaladas em um sobrado modesto do Recanto das Emas, no Distrito Federal. No endereço, os investigadores encontraram ao menos dez empresas registradas, ocupando salas de cerca de 20 metros quadrados — várias delas, segundo o relatório, aparentemente vazias.
Por esse conjunto de empresas teriam passado R$ 304 milhões, valor que a PF descreve como recurso desviado dos benefícios previdenciários e repassado a operadores financeiros. O documento, de 256 páginas, foi enviado ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, e indiciou 48 pessoas por organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro.
Conafer no centro do esquema
O inquérito concluído trata especificamente da atuação da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), uma das entidades autorizadas a fazer descontos associativos direto na folha do INSS. Pelos cálculos da corporação, a entidade recebeu R$ 708 milhões em descontos ao longo do esquema e destinou cerca de 90% desse total a empresas de fachada e a contas de operadores financeiros, em vez de aplicar o dinheiro em serviços aos associados.
Entre os indiciados estão o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, o ex-procurador-geral do instituto Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, o ex-ministro da Previdência e ex-presidente do INSS José Carlos Oliveira e o ex-deputado Euclydes Pettersen. A PF calcula que o ex-procurador-geral tenha recebido R$ 6,5 milhões em propina e que um ex-diretor da autarquia tenha embolsado R$ 3,4 milhões. Todos os citados são suspeitos e ainda não foram denunciados nem condenados: o indiciamento é uma conclusão da investigação policial, e cabe agora à Procuradoria-Geral da República decidir se apresenta denúncia ao STF. Os investigados negam irregularidades e afirmam que vão demonstrar sua inocência no curso do processo.
Da fila do INSS aos supercarros
A Operação Sem Desconto foi deflagrada para apurar cobranças associativas irregulares em benefícios do INSS, prática que atingiu milhões de aposentados que viam descontos mensais aparecer no contracheque sem ter assinado qualquer autorização. As apurações estimam que o esquema tenha funcionado de 2019 a 2024 e provocado prejuízo bilionário aos segurados — cifra que, nos desdobramentos já apurados, passa de R$ 6 bilhões. O escândalo derrubou a cúpula do instituto e levou o então ministro da Previdência, Carlos Lupi, a deixar o cargo em abril de 2025.
O contraste entre a origem e o destino do dinheiro é um dos pontos destacados pelos investigadores. Em março deste ano, o STF autorizou o leilão de dez carros e motos de luxo apreendidos em outra frente da investigação, avaliados em R$ 6,6 milhões — o lote incluía uma Lamborghini Urus S estimada em R$ 2,4 milhões, um Porsche 911 Carrera GTS de R$ 1,1 milhão, um Porsche Taycan elétrico de R$ 763 mil e um BMW M3 Competition de R$ 581 mil.
Na outra ponta, o governo federal mantém o programa de ressarcimento aos beneficiários lesados, que devolve os valores descontados indevidamente a quem contestou a cobrança. O inquérito agora concluído é apenas o primeiro relatório final da operação: outras frentes seguem em apuração, envolvendo demais entidades associativas que também firmaram acordos de desconto em folha com o instituto.
















