O número de brasileiros que trabalham por aplicativo chegou a 1,9 milhão em 2025, alta de 36,8% em três anos, segundo o módulo especial da Pnad Contínua sobre plataformas digitais divulgado nesta sexta-feira (4/9) pelo IBGE. O crescimento, porém, veio com jornada mais longa e ganho por hora menor que o dos demais trabalhadores.

A maior fatia, 58,9%, trabalha em apps de transporte de passageiros como Uber e 99. Entregadores de comida e produtos somam 376 mil pessoas (19,2%), e outros 313 mil prestam serviços gerais ou profissionais pelas plataformas.

Para o analista da pesquisa no IBGE, Gustavo Geaquinto Fontes, o vínculo informal não significa autonomia real. "Apesar de essa pessoa não ter um vínculo formal com a plataforma, ele, na verdade, tem uma dependência em vários aspectos em relação à empresa", disse.

Mais horas de trabalho, ganho por hora menor

Quem trabalha por aplicativo cumpre em média 44,7 horas semanais, contra 39,3 horas dos demais ocupados do setor privado. Apesar da jornada mais longa, o rendimento por hora é de R$ 16,20, 12% abaixo dos R$ 18,40/hora de quem não é plataformizado.

A informalidade também é maior entre os plataformizados. Do total, 72,1% não têm carteira assinada nem contribuição própria regular, contra 42,7% dos demais trabalhadores. Só 34% deles têm cobertura previdenciária, ante 63% no restante da força de trabalho.

A dependência da plataforma vai além do salário. Segundo a pesquisa, 80,2% dos motoristas e 78,3% dos entregadores dependem inteiramente do aplicativo para definir o valor da corrida ou da entrega, e 71,3% não escolhem a forma como recebem o pagamento.

A mesma categoria que cresce é a que hoje denuncia empresas como Keeta e 99Food ao Ministério Público do Trabalho por bônus prometidos e não pagos.

O que dizem os especialistas sobre o crescimento

Para o professor José Dari Krein, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit/Unicamp), o avanço dos números não traduz melhora. "Aumento não significa melhora nas condições", afirmou, ao comentar edição anterior da mesma pesquisa.

Na avaliação da procuradora do trabalho Clarissa Ribeiro Schinestsck, o trabalho por plataforma segue "totalmente precarizado, desprovido de direitos trabalhistas e previdenciários".

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A categoria cresce mesmo com as maiores empresas do setor cortando vagas. Em setembro, a Uber demitiu 3,3 mil funcionários no maior enxugamento desde a pandemia, mas o corte atingiu o quadro próprio da empresa, não os motoristas parceiros.

O ponto em aberto

Desde agosto, o Supremo Tribunal Federal vota se motorista de aplicativo tem vínculo de emprego com as plataformas.

Enquanto isso, os números do IBGE mostram uma dependência que já existe na prática, com mais de 8 em cada 10 motoristas e entregadores sem controle sobre o preço ou o prazo do próprio trabalho.