O banco central da Holanda transferiu 86 toneladas de ouro dos Estados Unidos e do Canadá para Londres entre março e agosto deste ano, citando "instabilidade geopolítica crescente". A operação reacende uma pergunta que vale também para o Brasil: quem confia em guardar reservas em solo americano, e quem já não confia mais? A operação acontece na mesma semana em que o dólar recuou e a Bolsa brasileira disparou.
Do total movimentado pelo De Nederlandsche Bank (DNB), 59 toneladas foram vendidas em Nova York e recompradas em Londres, sem transporte físico pelo Atlântico. Outras 27 toneladas saíram fisicamente dos cofres nos EUA e no Canadá rumo a Zeist, na Holanda, e depois seguiram para Londres.
Por que a Holanda desconfia dos EUA
Em nota, o banco holandês disse que "manter uma parcela maior das reservas de ouro em Londres fortalece o papel do ouro como um ativo de confiança". Por trás da frase burocrática está o receio de que Washington, sob o governo Trump, perca credibilidade como custodiante e possa um dia bloquear ou usar como moeda de troca geopolítica o acesso a reservas de outros países.
Não é a primeira vez: em 2014, a Holanda já havia reduzido a fatia guardada em Nova York, que chegou a 51% do total, e repatriado parte do ouro. A França vendeu ouro que mantinha nos EUA e o trocou por metal em Paris, e a Alemanha sofre pressão do partido AfD para repatriar tudo o que ainda tem em Nova York. A desconfiança em ativos ligados aos EUA aparece em outra ponta do mercado: os ataques dos EUA ao Irã já mexeram com a Bolsa brasileira, e o petróleo bateu US$ 97 após retaliações do Irã em cinco países.
Depois da movimentação, a reserva holandesa de 612,4 toneladas ficou distribuída assim: 32,1% em Londres, 30,8% no cofre de Zeist, na própria Holanda, e 18,5% em cada um dos dois polos que restaram, Nova York e Ottawa. A Holanda escolheu concentrar mais ouro em casa e em Londres, e menos nos Estados Unidos, e disse publicamente quanto ficou em cada lugar.
E o Brasil, o que faz com o próprio ouro?
O Banco Central do Brasil também mexeu no estoque, mas para aumentá-lo: as reservas em ouro subiram 33%, de 129,6 para 172,4 toneladas, com compras entre setembro e novembro de 2025, as primeiras em quatro anos. Parte do ouro brasileiro fica sob custódia do Bank of England, em Londres, e do Federal Reserve Bank de Nova York, os mesmos dois endereços que a Holanda está reequilibrando.
A diferença está na transparência: o banco holandês divulgou o percentual exato guardado em cada praça, enquanto o Banco Central do Brasil trata como sigilo como divide o ouro entre Londres, Nova York e o próprio país.
O momento também ajuda a entender o apetite por ouro dos bancos centrais: a cotação do metal opera em US$ 4.494 a onça-troy nesta quinta-feira (3), depois de já ter passado dos US$ 5.000 em 2026, alta de mais de 23% em 12 meses.
O que a TV Sim observa
Nenhuma lei obriga o Banco Central a detalhar onde guarda cada tonelada do ouro do país. Mas a Holanda mostrou que dá para reequilibrar a reserva e ainda informar ao cidadão, com números, o que mudou. Fica em aberto se o sigilo brasileiro protege a operação ou só evita a pergunta sobre quanto do patrimônio nacional depende da confiança nos Estados Unidos.


























