A corrida da inteligência artificial transformou os data centers em teste para o sistema elétrico brasileiro. Projetos do setor já somam mais de 38 GW em pedidos de conexão à rede, segundo dados citados por MME e ONS, com nova política federal para o setor.

O Redata tenta atrair investimento com contrapartidas de energia limpa. O Brasil entra nessa disputa com matriz elétrica majoritariamente renovável, localização próxima de grandes mercados e demanda crescente por nuvem.

Segundo levantamento da JLL citado pela Exame, o país fechou o primeiro semestre de 2026 com 706 MW de capacidade instalada em data centers, mais de seis vezes o volume registrado em 2012.

Até dezembro, outros 134 MW devem entrar em operação. A projeção estima cerca de US$ 8 bilhões associados às entregas de 2026 e mais US$ 17,4 bilhões em potencial até 2030, quando o mercado brasileiro pode dobrar de tamanho.

O gargalo não está só em gerar eletricidade. O Valor registra que data centers funcionam 24 horas por dia e precisam de estabilidade de tensão e fator de carga próximo a 100%, algo diferente da lógica de consumo residencial ou industrial comum.

A pergunta prática é se o país consegue transformar energia renovável em energia firme, entregue no lugar certo e na hora certa. Solar e eólica ajudam na competitividade.

A intermitência, cortes de geração e a baixa escala de baterias ainda deixam a rede dependente de planejamento fino.

A pressão já apareceu em outros capítulos da cobertura de tecnologia. A TV Sim mostrou que a pegada climática da IA entrou na pauta climática internacional e que empresas brasileiras miram refrigeração mais eficiente.

Quem paga pela expansão da rede?

Quem paga pela expansão da rede depende do tipo de obra. Encargos de conexão são responsabilidade do usuário, mas reforços maiores podem entrar na estrutura geral do sistema elétrico, que aparece na tarifa paga por consumidores.

A Exame lembra que a conta de luz inclui geração, transmissão, distribuição, encargos setoriais e tributos. Por isso, tratar toda obra como custo exclusivo dos data centers simplifica um problema que envolve planejamento nacional.

O Plano Decenal acompanhado por MME e EPE projeta consumo brasileiro de eletricidade de 939 TWh em 2035, com crescimento médio de 3,3% ao ano. Grandes cargas podem representar de 1,2% a 12,9% da demanda projetada.

A Agência Internacional de Energia (IEA) dimensiona a pressão global. A entidade estima que o consumo elétrico de data centers deve mais que dobrar até 2030, para cerca de 945 TWh.

Segundo a IEA, um centro focado em IA pode consumir energia equivalente à de 100 mil residências. A escala explica por que a discussão deixou de ser só tecnológica e passou a envolver energia, água e território.

O que o Redata exige?

O Redata exige contrapartidas de empresas que buscam incentivo fiscal. Elas incluem energia limpa ou renovável contratada ou autoproduzida, eficiência hídrica de até 0,05 litro por kWh e investimento em pesquisa no Brasil.

Segundo o Ministério da Fazenda, o regime foi sancionado em 15 de setembro e abrange computação em nuvem, processamento de alto desempenho, treinamento e inferência de modelos de IA.

Esse movimento dialoga com o investimento da ODATA em refrigeração, outra frente de custo e eficiência para o setor.

As empresas também precisam reservar ao mercado interno pelo menos 10% da capacidade efetiva de processamento, armazenagem e tratamento de dados. A exigência conversa com outro dado citado pela Fazenda: cerca de 60% dos dados dos brasileiros estão fora do país.

O governo quer atrair infraestrutura, mas também amarrar parte da capacidade a universidades, empresas brasileiras e instituições nacionais. A disputa por processamento ganhou escala porque companhias como a OpenAI projetam gastos muito acima da receita para sustentar modelos maiores.

O lado técnico continua decisivo. No Ceará e no Piauí, a EPE já propôs uma solução de transmissão capaz de viabilizar até 4 GW adicionais para projetos como data centers e hidrogênio a partir de 2032.

O que acontece agora

O que acontece agora é a regulamentação e a seleção dos projetos que poderão usar o Redata, sob autorização do Ministério da Fazenda. O desafio será separar promessa de investimento de carga viável para a rede.

Se a energia limpa não vier acompanhada de transmissão, flexibilidade e compromisso local, o data center vira só mais uma grande carga disputando espaço na conta elétrica. A oportunidade depende de fio, subestação, contrato e fiscalização.