O presidente Lula (PT) foi orientado por sua equipe a ignorar as declarações de Donald Trump sobre a fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos e sobre a eleição presidencial de outubro, dizem auxiliares ouvidos pela CNN nesta quarta-feira (28).

A avaliação interna é de que a crise diplomática desgasta mais o bolsonarismo do que o próprio governo.

O primeiro motivo é que a proteção dos Estados Unidos a bolsonaristas não é novidade. Os auxiliares citam os casos de Eduardo Bolsonaro e do ex-diretor da Polícia Federal Alexandre Ramagem.

O segundo motivo é que as falas de Trump soam, para a equipe, como um "chororô de perdedor", embora sejam vistas como ambíguas. O republicano afirmou gostar de Lula.

O terceiro motivo é que o petista não deve "entrar nessa agenda de perdedores", segundo os auxiliares ouvidos pela reportagem.

Trump havia dito, na segunda-feira (26), que a eleição brasileira "pareceu mais uma eleição fraudada" e chamou de péssima a imagem da apuração dos votos. As autoridades eleitorais brasileiras confirmaram a integridade do pleito, e o republicano não apresentou provas para a acusação.

"Eu gosto do Lula, me dou muito bem com ele", disse Trump a jornalistas, ao amenizar o tom sobre o presidente reeleito.

A Polícia Federal já havia pedido a apreensão dos passaportes de Flávio minutos após a derrota no TSE, e o documento comum do senador havia sido cancelado por determinação do STF.

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Mesmo assim, ele entrou nos Estados Unidos com o passaporte diplomático, ao qual tem direito pelo mandato parlamentar. Registros públicos da autoridade alfandegária americana confirmam a entrada com o mesmo número do documento da lista oficial de controles.

O senador responde a três inquéritos e também enfrenta pedidos de cassação no TSE, que avançam com ele fora do país. Nos Estados Unidos, parlamentares democratas criticaram a concessão de vistos a Flávio e aliados.

Se decidir agir, o governo brasileiro tem à disposição uma "caixa de ferramentas" que inclui nota do Itamaraty, nota da Presidência ou declaração do próprio Lula.

A orientação, por ora, é que o presidente se mantenha magnânimo e soberano, como o vencedor, sem dar palco à crise.

O que acontece agora

A orientação passada a Lula é esperar os desdobramentos da crise em torno da família Bolsonaro nos Estados Unidos e o resultado das eleições de meio de mandato americanas, marcadas para 3 de novembro.

Segundo os auxiliares, o republicano "deve passar por um momento de aflição, para dizer o mínimo" quando o resultado sair. Até lá, o governo brasileiro evita qualquer pronunciamento oficial sobre o caso.