O discurso do "pânico moral", estratégia da extrema direita evangélica para associar o voto na esquerda ao pecado, perdeu força na eleição presidencial de 2026, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. Pastores bolsonaristas aceitaram o resultado das urnas sem a resistência das eleições anteriores.

São almas sem Deus e que, se passarem desta vida para a outra como estão, irão para o inferno.

A frase é do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), sobre quem votou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no 2º turno. Segundo a Folha, o discurso resiste, mas convence cada vez menos.

A estratégia do pânico moral interdita o debate racional sobre temas como aborto, feminismo e direitos de pessoas LGBTQIA+ entre evangélicos. Debater essas pautas publicamente passa a ser tratado como pecado, segundo a reportagem.

Dois fatores explicam o enfraquecimento, segundo a Folha.

Internamente, o campo evangélico bolsonarista acumulou escândalos morais, e a família Bolsonaro ficou longe de ser exemplo de moralidade cristã, o que minou a narrativa de "luz contra as trevas". Externamente, pesou a postura do governo Lula ao longo do mandato.

O governo não fechou igrejas, como pastores bolsonaristas alertavam em 2018 e 2022, nem atacou o modelo de família tradicional, segundo a reportagem.

Essa previsão, repetida em duas eleições seguidas, não se confirmou de novo.

Outro argumento perdeu força. O de que a esquerda defende o aborto foi desmontado pelo deputado evangélico Otoni de Paula, que mostrou que Lula nunca apresentou projeto de lei sobre o tema nem pediu a aliados.

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Evangélicos de esquerda também sustentaram o voto em Lula, mesmo sem o apoio de grandes lideranças pentecostais e neopentecostais. Isso ajudou a desmontar a ideia de que fé cristã e esquerda seriam incompatíveis, repetida por nomes como Silas Malafaia, André Valadão e Valdomiro Santiago.

A disputa pelo voto evangélico marcou toda a campanha. Em outubro, Lula chegou a escrever carta aos evangélicos pedindo discernimento a Deus no voto, enquanto o TSE mandava Nikolas Ferreira apagar um post que ligava uma fala do presidente a crianças.

Levantamento anterior já mostrava que a maioria dos evangélicos se declara de direita, mas rejeita política dentro do culto, uma rachadura que a campanha de 2026 expôs.