Um estudo da Faculdade de Medicina da USP encontrou fentanil na saliva de 21 das 65 pessoas que usam maconha sintética em São Paulo. Nenhuma delas sabia que consumia o opioide, que é a droga por trás da crise de overdoses nos Estados Unidos.

A maconha sintética, conhecida nas ruas como K2, K4, K9 ou "droga K", não vem da planta de cannabis. É produzida em laboratório com substâncias artificiais semelhantes ao THC e borrifada sobre plantas secas para ser fumada.

A pesquisa é a primeira a confirmar fentanil em amostras biológicas de usuários de drogas no Brasil, segundo os autores. Até então, a presença da substância no país aparecia sobretudo em apreensões policiais e casos isolados.

Os 65 participantes foram recrutados entre agosto de 2024 e agosto de 2025. Vieram de três serviços públicos de tratamento de São Paulo: o Instituto Perdizes do Hospital das Clínicas e dois Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) da Zona Leste.

O achado, presente em 32% dos participantes, integra uma série de descobertas recentes de novas substâncias na saliva de usuários em SP, incluindo duas drogas sintéticas achadas pela Unicamp em testes de festas paulistas.

Por que a descoberta preocupa os pesquisadores

Nenhum dos participantes que relataram uso de maconha sintética disse ter consumido opioides. Ou seja, eles não sabiam que estavam expostos ao fentanil.

O opioide, de alta potência, pode comprometer a respiração e levar a um quadro letal, como mostrou a morte da atriz Hayden Panettiere por overdose de fentanil nos Estados Unidos.

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Os pesquisadores classificam o achado como alerta à saúde pública. No Brasil, o uso ilegal de opioides sempre foi considerado raro, mesmo entre as populações mais vulneráveis.

O que os pesquisadores recomendam

Ligia Goes Endo, doutoranda da FMUSP e primeira autora do estudo, defende o monitoramento constante do mercado de drogas e das amostras biológicas para orientar estratégias de redução de danos e evitar crises de saúde pública.

A pesquisadora cita a importância de protocolos de emergência com naloxona, medicamento que reverte overdoses de opioides, diante da possibilidade de contaminação do mercado de drogas em São Paulo.

O fentanil já preocupa autoridades no Brasil

O Brasil ainda não vive uma crise de opioides como a da América do Norte, mas o fentanil já aparece em apreensões policiais, puro ou desviado de hospitais.

A maior preocupação das autoridades é o uso da substância para "batizar" outras drogas mais consumidas no país, o que aumentaria o número de overdoses acidentais.

O país também enfrenta lacunas regulatórias, como mostra o caso do kratom.