A Polícia Federal apura um depoimento que aponta repasse de dinheiro do agiota Josival Cavalcanti da Silva, o Pacovan, ao governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), com parte dos valores entregues dentro do Palácio dos Leões. O relato é de Gilbson César Soares Cutrim Júnior, condenado por um homicídio de 2022 ligado ao caso.

Segundo o depoimento prestado por Gilbson à PF em fevereiro, o dinheiro teria sido repassado também a Daniel Itapary Brandão, sobrinho do governador e presidente do Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA).

Gilbson foi condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato do empresário João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, morto em 2022 no prédio Tech Office, em São Luís.

"Beto tava amarelinho me olhando assim. Aí Daniel, Daniel logo que eu sentei, Daniel só disse assim, 'ó, é para fazer do jeito que o tio disse'", declarou Gilbson em depoimento à PF.

Documentos da PF apontam ainda pagamentos para garantir silêncio à família de Gilbson, nos valores de R$ 25 mil, R$ 100 mil e R$ 30 mil, intermediados por Rodrigo José Aires Almeida.

"Gilbson César Soares Cutrim Júnior, autor de homicídio, desempenharia função operacional no fluxo das tratativas de pagamentos ilícitos", escreveu o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), em despacho sobre o caso.

Com base nesse cenário, Dino determinou em 17 de agosto o afastamento de Daniel Brandão da presidência do TCE-MA por 180 dias.

A decisão proíbe o conselheiro de acessar sistemas do órgão, usar bens ou serviços da instituição e manter contato com Gilbson, a família dele até o terceiro grau e com o próprio governador.

Daniel havia sido indicado ao TCE-MA pelo tio em fevereiro de 2023.

Em nota, a defesa de Carlos Brandão contestou a validade da apuração no STF. Segundo os advogados, cabe ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), e não ao STF, julgar governadores em crimes comuns, e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não referendou as investigações.

A defesa afirma que houve "usurpação de competência constitucional e violação da garantia fundamental do juiz natural" e diz tentar, há mais de um ano, acesso às investigações sigilosas sem sucesso.

Ainda segundo a nota, o governador mantém "confiança nas instituições" e vai adotar "todas as medidas constitucionais e legais cabíveis".

O caso é desdobramento do afastamento do presidente do TCE-MA determinado por Dino no dia anterior. Os dois já foram aliados. Dino governou o Maranhão de 2015 a 2022, e Brandão, então vice, o sucedeu no cargo.

A relação azedou depois que Dino deixou o Palácio dos Leões. Em agosto de 2025, o atual governador rompeu com a ala de apoiadores do ministro no estado, por divergências sobre alianças para 2026.

Brandão está no segundo mandato e não pode disputar a reeleição em outubro. Ele apoia a candidatura do sobrinho Orleans Brandão (MDB) ao governo do Maranhão, contra nomes como Eduardo Braide (PSD).

O impasse sobre quem julga o governador

A disputa de competência entre STF e STJ ainda não tem desfecho anunciado.

Enquanto ela não é resolvida, o afastamento do sobrinho do governador segue valendo, e a apuração sobre o repasse de dinheiro ao Palácio dos Leões continua sob relatoria de Dino, alvo do pedido da defesa.