Mais da metade dos pequenos negócios de Minas Gerais já usa inteligência artificial, mas só uma fração aplica a tecnologia de forma integrada à operação. Segundo a pesquisa Digitalização nos Pequenos Negócios, feita pelo Sebrae Minas em março, 56% dos empreendedores usam IA em alguma área e 11,2% a adotam de forma estratégica e integrada.
Dentro desses 56%, o uso ocasional responde por 27,4% e o uso frequente, por 17,6%. Outros 43,9% dos empreendedores mineiros não usam a tecnologia em nenhuma área do negócio.
As aplicações se concentram na ponta da comunicação. Produção de conteúdo para redes sociais aparece em 29,6% das respostas e marketing e publicidade, em 27,4%.
A IA entrou pela área de comunicação, não pelo processo produtivo.
"A IA vem para complementar as empresas, para formar uma dupla com o empresário", disse Carla Gobb, analista do Sebrae Minas. Ela destacou que ainda há desafios a superar, entre eles a limitação financeira.
A barreira mais citada, porém, não é dinheiro. A falta de conhecimento técnico aparece para 28,7% dos entrevistados, contra 14,7% que apontam dificuldade de integração com sistemas e 10,3% que citam o custo inicial.
O que separa quem experimenta de quem integra
Segundo a FIEMG, as oportunidades de aplicação da IA surgem de desafios reais das empresas, como ineficiências operacionais, dificuldades comerciais e gestão de custos. O cenário é mais evidente entre micro e pequenas indústrias.
"A IA é uma ferramenta poderosa, mas sua adoção exige maturidade de gestão. Sem processos estruturados e clareza estratégica, o risco é gerar frustração e baixo retorno", afirmou Raquel Lopes, coordenadora de projetos para a indústria do IEL Minas Gerais.
O programa FIEMG Competitiva realizou três edições do Imersão IA para Líderes Industriais em 2025, em Belo Horizonte e Divinópolis, com cerca de 75 empresas. Ao todo, mais de 350 indústrias mineiras passaram pelas ações de IA do programa entre 2024 e 2025.
Os projetos setoriais chegaram a construção civil, moda, laticínios e metalmecânico.
O gargalo não é só mineiro. No estudo State of AI in the Enterprise, da Deloitte, 58% das empresas brasileiras dizem que, no máximo, 20% de seus pilotos de IA foram implementados. Apenas 23% escalaram 40% ou mais.
O levantamento ouviu 3.235 líderes de negócios e TI em 24 países, entre eles 115 executivos brasileiros, entre agosto e setembro de 2025. Segundo Jefferson Denti, Chief Disruption Officer da Deloitte, o desafio agora é escalar os pilotos com casos de resultados concretos.
Belo Horizonte entra na conta
A capital mineira recebe nesta quinta-feira (20) a etapa mineira do AI Executive Summit Brasil 2026, na Localiza Labs. Segundo dados apresentados pelo evento, Minas tem cerca de 780 startups, e Belo Horizonte é o segundo polo do país em número de startups.
Para Guilherme Friol, CEO da Vircos Tecnologia, o debate sobre IA se concentra nas ferramentas e nos modelos, e sem infraestrutura robusta e segura a tecnologia não entrega todo o seu potencial.
O setor público também entrou. Entre agosto e dezembro, a Prefeitura de Belo Horizonte e a Prodabel instalam 500 controladores de sinais de trânsito com apoio de IA, alcançando cerca de 1.500 semáforos, em investimento superior a R$ 10 milhões.
A prefeitura espera reduzir de 30% a 35% o tempo de deslocamento nos horários de pico. A cidade também ganhou um centro de R$ 15 milhões para digitalizar mil negócios, o equivalente a 0,5% das microempresas da capital.
Olhando para frente, 52,3% dos empreendedores mineiros pretendem ampliar os investimentos em IA nos próximos 12 meses. Apenas 3,8% dizem não ter intenção de adotar a tecnologia.
O risco de parar no piloto
Os números do Sebrae Minas e da Deloitte apontam na mesma direção. A adoção é larga e a profundidade é rasa.
A pergunta é se a maioria que promete investir mais nos próximos 12 meses vai mudar processos ou apenas somar ferramentas ao que já existe.


























