A nova rodada de sobretaxas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros atinge US$ 6,6 bilhões em exportações, o equivalente a 23,1% de tudo o que o Brasil vende ao mercado americano, segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) divulgado nesta semana.

O percentual de 37,5% não vem de uma única canetada. Ele resulta da soma de duas medidas: a tarifa adicional de 25%, decorrente de investigação específica contra o Brasil, e uma nova sobretaxa de 12,5% anunciada por Washington na quinta-feira (23), justificada por uma investigação sobre trabalho forçado. Quando as duas incidem sobre o mesmo item, a alíquota acumulada chega a 37,5%.

Quem é atingido e quem escapa

Pelos números do MDIC, além dos US$ 6,6 bilhões sujeitos à alíquota cheia, outros US$ 1,9 bilhão ficam apenas com a sobretaxa de 12,5% e US$ 800 milhões apenas com a de 25%. Um bloco de US$ 9,8 bilhões segue sob tarifas setoriais já existentes e US$ 21,3 bilhões em produtos não receberam novas sobretaxas.

Entre os itens atingidos estão máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções — setores de manufatura intensiva em mão de obra, que empregam de forma concentrada em polos industriais do Sul e do Sudeste. Ficaram de fora da nova taxação, entre outros, café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, ferro fundido, celulose e produtos químicos.

As medidas passaram a valer em julho, com ressalva para mercadorias já embarcadas antes da entrada em vigor e que chegaram aos portos americanos dentro do prazo fixado pelo governo dos Estados Unidos.

Governo contesta o argumento do trabalho forçado

O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, classificou como "injusto e descabido" o argumento usado pelos americanos para aplicar a sobretaxa de 12,5% e afirmou que o Brasil seguirá negociando e questionará tanto a nova alíquota quanto a tarifa de 25%. O governo também sinalizou que vai ampliar a presença brasileira em outros mercados como resposta de médio prazo.

O secretário-executivo do ministério, Márcio Elias Rosa, rebateu diretamente a justificativa apresentada por Washington, lembrando que o país é signatário dos instrumentos da Organização Internacional do Trabalho e mantém política consolidada de fiscalização, prevenção e acolhimento de vítimas de trabalho análogo à escravidão.

O efeito comercial já aparece nos números. Depois de atingir o recorde de US$ 40,4 bilhões em exportações aos Estados Unidos em 2024, as vendas brasileiras recuaram para US$ 37,7 bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, somaram US$ 17,4 bilhões, uma retração de 13% na comparação com o mesmo período do ano passado.