Uma operação do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) com o Ministério Público do Trabalho (MPT) resgatou 55 trabalhadores em condições análogas à escravidão em Cezarina, no sul de Goiás, nos dias 23 e 24 de julho. O grupo — entre eles nove mulheres — atuava na extração de palha de milho, matéria-prima usada na fabricação de cigarros de palha.

Segundo a fiscalização, todos haviam sido aliciados em cidades de Minas Gerais e da Bahia, a centenas de quilômetros do local do trabalho. A promessa feita no recrutamento era de uma renda entre R$ 6 mil e R$ 10 mil por mês. A realidade encontrada pelos auditores foi outra: em 50 dias à disposição do empregador em Goiás, o grupo trabalhou apenas 10 dias e recebeu, nos períodos parados, o equivalente proporcional ao salário mínimo de R$ 1.621. Os pagamentos, que deveriam ser quinzenais, estavam atrasados.

Ao todo, cerca de 150 pessoas foram recrutadas para a atividade. Dois terços delas abandonaram o serviço por conta própria antes da fiscalização — sem receber salários nem verbas rescisórias.

Sem água potável e sem lugar para comer

Os auditores registraram a ausência de local adequado para as refeições e a falta de fornecimento de água potável aos trabalhadores. A legislação brasileira não exige a existência de cárcere para caracterizar o trabalho análogo ao de escravo: bastam jornada exaustiva, condições degradantes ou servidão por dívida.

A ação contou ainda com apoio da Polícia Militar de Goiás e da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, e a Polícia Federal foi notificada. O MTE comprou as passagens de retorno do grupo, que embarcou na rodoviária de Goiânia rumo às cidades de origem em Minas e na Bahia. Cada resgatado tem direito a três parcelas de seguro-desemprego no valor de um salário mínimo.

O empregador foi autuado e poderá ser incluído no Cadastro de Empregadores que submeteram trabalhadores a condições análogas à de escravo, a chamada lista suja. O MPT informou que vai ajuizar ação para cobrar salários, verbas rescisórias e indenizações por dano moral individual e coletivo. Não há, até o momento, condenação judicial — os responsáveis têm direito a defesa e a decisão final cabe à Justiça do Trabalho.

Minas lidera a lista suja

O caso reforça um padrão já mapeado pela fiscalização: Minas Gerais é ao mesmo tempo grande fornecedor de mão de obra aliciada e o estado com mais empregadores flagrados. Na atualização da lista suja publicada em abril de 2026, o país chegou a 613 empregadores cadastrados, com 169 nomes novos. Minas responde por 122 registros, cerca de 20% do total nacional, e teve 398 pessoas resgatadas nos 36 casos novos incluídos.

No balanço de 2025, o Brasil resgatou 2.772 trabalhadores dessa condição em 1.594 fiscalizações, alta de 38% sobre 2024. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás concentraram o maior número de operações.