A nova rodada do tarifaço americano contra o Brasil chegou com uma exceção decisiva para o agronegócio mineiro: o café e a carne bovina ficaram fora da tarifa adicional de 12,5% anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) na quinta-feira, 23 de julho, com vigência a partir do dia seguinte. A sobretaxa é resultado da investigação aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da lei de comércio americana.
A lista de exceções não é curta. Além do café — inclusive o solúvel sem adição de açúcar —, ficaram de fora carne bovina, abacate, páprica e derivados, sementes para plantio, produtos de origem animal usados em ração, fibras vegetais como coco, juta e sisal, açúcar dentro de cota, insumos de fertilizantes e defensivos, couros e peles. Outros 471 itens industriais também foram excluídos, entre eles produtos de madeira e eucalipto, óxidos de vanádio, sucata de alumínio, coque, alumina, itens de cobre e equipamentos para semicondutores.
Por que o café escapou
O argumento que sustentou a exceção é de oferta interna. O USTR chegou a receber pedidos para retirar carne bovina, abacate e páprica da lista de isenções, mas manteve os três produtos fora da tarifa alegando oferta doméstica limitada nos Estados Unidos, que atravessam um dos piores ciclos pecuários de sua história. No caso do café, a National Coffee Association (NCA) sustentou junto ao governo americano que a taxação encareceria torrefadoras, varejistas e consumidores, já que o país depende quase integralmente da importação — e o Brasil é seu principal fornecedor.
Para a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), a inclusão do solúvel entre as exceções foi o ponto mais sensível. O produto já vinha de uma sobretaxa de 50% e chegou a estar enquadrado na tarifa de 25% que passou a valer em 22 de julho. "É com grande alívio que o setor recebe a notícia de que o café solúvel também foi incluído na lista de exceções das tarifas americanas", afirmou o presidente-executivo da entidade, Aguinaldo José de Lima. O segmento movimenta cerca de US$ 220 milhões por ano com os Estados Unidos, cliente principal há seis décadas.
O peso mineiro na conta
Minas Gerais é o maior exportador de café do país e o estado mais exposto ao desfecho. Entre janeiro e junho de 2026, os embarques mineiros de café para os Estados Unidos somaram US$ 645,8 milhões, com 95,5 mil toneladas — volume que sustenta cerca de 330 mil famílias de cafeicultores distribuídas em 39 regiões produtoras do estado. No conjunto do Brasil, a proteção ao café solúvel resguarda entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões em comércio anual com o mercado americano.
A isenção chega em um momento de aperto na oferta. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), a safra 2025/26, encerrada em junho, teve 38,462 milhões de sacas de 60 quilos embarcadas para 125 países, queda de 15,7% em volume na comparação com o ciclo anterior. O arábica respondeu por 29,499 milhões de sacas, ou 76,7% do total, com recuo de 15,3%.
A receita, no entanto, seguiu caminho oposto ao do volume: US$ 14,595 bilhões, a segunda maior da série histórica, sustentada por um preço médio de exportação de US$ 379,48 por saca, o mais alto já registrado e 17,4% superior ao do ciclo passado. Só em junho, o Brasil embarcou 3,060 milhões de sacas, com receita de US$ 972,8 milhões — alta de 16,9% no volume e queda de 6% no faturamento.
O clima explica parte da cautela dos produtores. As chuvas atrasaram a colheita 2026/27, com a umidade dificultando a operação de máquinas e alongando o tempo de secagem dos grãos, o que reduziu a margem para antecipar vendas. "Os EUA são parceiros insubstituíveis", disse o diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, ao comentar a manutenção do acesso ao maior mercado consumidor do mundo.
A exceção tarifária preserva o canal comercial, mas não resolve a equação do produtor. Custos logísticos, câmbio volátil e a concorrência de outros fornecedores globais continuam pressionando as margens na ponta da lavoura — e a tarifa de 12,5% segue valendo para a maior parte da pauta exportadora brasileira que não entrou na lista de exceções.
















