O gol mais bonito da carreira de Pelé nunca teve câmera apontada para ele. Em 2 de agosto de 1959, no estádio da Rua Javari, no bairro paulistano da Mooca, o então jovem atacante do Santos deu três chapéus consecutivos — em dois defensores e no goleiro — sem deixar a bola tocar o chão, antes de completar para as redes. O futebol brasileiro ainda não tinha videoteipe. O lance sobreviveu em uma única fotografia, em relatos de jornalistas e na lembrança de quem estava na arquibancada.

Sessenta e sete anos depois, o Google DeepMind divulgou uma reconstrução audiovisual desse gol. O projeto, apresentado em 14 de julho, foi feito em parceria com a família do jogador e com a gestão da marca Pelé, sob a NR Sports, e teve coordenação de pesquisa da historiadora brasileira Anita Lucchesi.

Dois mil registros antes de qualquer geração de imagem

Antes de acionar qualquer modelo de inteligência artificial, a equipe montou uma base documental. Foram reunidos cerca de 2 mil registros históricos e 3.600 imagens de arquivo, incluindo plantas arquitetônicas do estádio, álbuns de família, fotografias de época e entrevistas com testemunhas, jornalistas e moradores da Mooca.

Segundo Lucchesi, os pesquisadores usaram uma maquete do estádio, fotos de arquivo e diagramas para ajudar as testemunhas a reconstruir o lance de memória — um método mais próximo da história oral do que da produção audiovisual convencional. A partir dessa base, o gol foi encenado por atores no próprio estádio da Rua Javari, com uniformes fiéis ao período e cobertura de várias câmeras para captar o movimento real dos corpos.

O desafio não era a imagem, era o movimento

A parte de IA cumpriu três funções principais: sobrepor o rosto e a camisa de Pelé a um atleta contemporâneo, transformar o estádio atual na sua versão de 1959 e gerar o ambiente ao redor — a torcida nas arquibancadas e a cena de quem acompanhava pelo rádio. Foram usados os modelos Veo, para geração de vídeo, Gemini Omni, no refinamento, e Nano Banana Pro, no acabamento de detalhes.

O obstáculo mais duro, segundo a equipe, não foi o fotorrealismo, e sim reproduzir movimento atlético convincente. A saída foi uma técnica chamada Performance Control, que extrai a geometria tridimensional e os movimentos precisos de um atleta real para guiar a geração do vídeo, preservando a mecânica corporal. O resultado passou ainda por uma pós-produção híbrida, com efeitos visuais tradicionais de cinema, ajuste manual da composição da bola, calibragem de cor e um tratamento final que simula a textura da película dos anos 1950.

A ressalva vem da própria família. Flávia Kurtz, filha de Pelé, afirmou que o pai sempre lamentou que o gol não tivesse sido registrado e disse ter orgulho de revê-lo por meio da tecnologia — mas o material é apresentado como uma recriação apoiada em evidências, e não como a descoberta de imagens originais. Lucchesi resume o projeto como algo que traz à luz um episódio que existia apenas na memória, oferecendo uma versão possível a partir de arquivos e lembranças preservadas.

Além de ter sido publicado em vídeo, o material ganhará espaço permanente no Museu Pelé, em Santos, no litoral paulista.