Começou neste domingo (26), em Niterói (RJ), a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), considerada o maior encontro científico da América Latina. A programação segue até 1º de agosto no campus do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), com entrada gratuita, e a organização espera reunir cerca de 50 mil pessoas em mais de 250 atividades, entre 60 conferências, 88 mesas-redondas, 63 minicursos, sessões de pôsteres e assembleias. Ao todo, são cerca de 500 palestrantes vindos de 23 estados, distribuídos em 20 trilhas temáticas.
O tema desta edição é "Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão" — e não é uma escolha neutra em ano de eleição geral. O encontro se estrutura em torno da ideia de que o país precisa decidir quanto quer depender de tecnologia estrangeira em áreas críticas como medicamentos, energia, alimentos e inteligência artificial.
117 propostas na mesa dos candidatos
O eixo político do evento é o caderno "Vozes da Ciência – O Brasil que queremos", lançado pela SBPC em 8 de julho, quando a entidade completou 78 anos. O documento reúne 117 propostas organizadas em sete eixos temáticos e endereçadas a candidatos ao Executivo e ao Legislativo. A lista passa por educação, saúde, mudanças climáticas, inteligência artificial, desenvolvimento econômico, segurança pública, soberania digital, cultura, segurança alimentar e enfrentamento à desinformação.
Junto com o caderno, a sociedade científica lançou o Observatório das Eleições 2026, espaço em que candidatos podem assinar um termo de compromisso público com as propostas — e no qual o eleitor poderá acompanhar quem aderiu e quem ficou de fora. É uma tentativa de transformar demanda difusa por investimento em pesquisa em cobrança rastreável durante a campanha.
"Em 2026, o Brasil discute o seu futuro e não há futuro soberano sem ciência", afirmou a presidenta da SBPC, Francilene Procópio Garcia, ao apresentar a pauta do encontro.
O argumento dos números
A conta que a comunidade científica leva ao debate eleitoral é comparativa. O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em ciência e tecnologia, ante 2,6% do PIB aplicados pela China — diferença que a entidade associa diretamente à dependência externa em setores estratégicos. No caso da saúde, o país importa cerca de 90% dos insumos farmacêuticos ativos usados na produção de medicamentos e acumulou um déficit comercial farmacêutico da ordem de US$ 13 bilhões entre 2024 e 2025.
Outras demandas do documento incluem a construção de infraestrutura computacional soberana para pesquisa e inteligência artificial, a recuperação de cerca de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas, o fim do desmatamento na Amazônia até 2030, o fortalecimento da agricultura familiar e a estabilidade do financiamento federal à pesquisa — tema recorrente desde os contingenciamentos que atingiram fundos setoriais nos últimos anos.
A programação também inclui a ExpoT&C, com 69 expositores, o SBPC Jovem, com feira de ciências voltada a estudantes da educação básica, o SBPC Cultural e espaços dedicados a gênero, diversidade e saberes indígenas e afro-brasileiros. O encerramento, em 1º de agosto, será o Dia da Família na Ciência, com atividades abertas ao público geral.














