O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou nesta segunda-feira (27), no Rio de Janeiro, que o risco de disseminação do ebola da República Democrática do Congo (RDC) para o resto do mundo permanece baixo. A declaração foi dada na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na zona norte da cidade, durante a agenda "Saúde global em um mundo em transformação", em que ele recebeu o título de doutor honoris causa da instituição.
"O risco para o resto do mundo ainda é baixo. Como o ebola é transmitido por contato intenso e não pelo ar, como a covid, não esperamos que se transforme em uma pandemia, pela própria natureza [do vírus]", disse Tedros. Ele lembrou que, nos 50 anos desde a descoberta do vírus, apenas 30 casos foram registrados fora das regiões africanas onde ocorrem os surtos.
A avaliação, porém, não vale para o entorno do foco da doença. "O risco para os países da região é alto", ressalvou o diretor-geral, que também admitiu dificuldade na contenção: "Estamos tentando conter [o surto] na RDC, mas a situação ainda é preocupante... precisamos fazer ainda mais". Segundo ele, os conflitos armados no leste do Congo e o deslocamento de populações inteiras atrapalham a resposta sanitária.
Mais de 3 mil casos desde maio
Declarado em 14 de maio de 2026, o surto foi classificado pela OMS como emergência de saúde pública de importância internacional dois dias depois. Segundo a OMS, já são mais de 3 mil casos confirmados e cerca de 1,4 mil mortes desde então. Dados consolidados do surto até 26 de julho apontam 3.221 casos, 1.407 mortes e 590 pessoas recuperadas — uma letalidade em torno de 44%. A quase totalidade dos registros está na RDC; Uganda contabiliza 20 casos e a França, um.
O agente do surto é o Bundibugyo ebolavirus, espécie diferente daquela para a qual os tratamentos e a vacina Ervebo já foram certificados. A própria OMS desaconselhou o uso desse imunizante no atual surto por falta de evidência suficiente de proteção cruzada, e não há vacina aprovada especificamente contra o Bundibugyo. Três candidatas estão em desenvolvimento acelerado, tocadas pela IAVI, pela Moderna e pela Universidade de Oxford.
O que o Brasil está fazendo
Nenhuma das autoridades sanitárias relatou casos de ebola no Brasil ligados a este surto, e a Anvisa classifica como baixo o risco direto ao país. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou em 22 de maio a Nota Técnica nº 26/2026, sobre febres hemorrágicas virais, que orienta vigilância epidemiológica intensificada em portos, aeroportos e fronteiras, investigação de casos suspeitos e isolamento de pessoas com sintomas compatíveis. O documento classifica como baixo o risco direto ao país, mas recomenda o fortalecimento da vigilância, a implementação do Plano de Contingência Nacional para Febres Hemorrágicas Virais e a capacitação de profissionais de saúde para reconhecer e manejar casos potenciais. Além da RDC e de Uganda, a nota cita registros na Tanzânia e em Ruanda.
Na cerimônia da Fiocruz, Tedros classificou a fundação como "um líder em equidade sanitária e um líder na cooperação Sul-Sul", em referência ao papel brasileiro na pesquisa científica e na articulação com países em desenvolvimento. Eleito em maio de 2017, ele é o primeiro africano a comandar a OMS. Nascido na Eritreia, foi ministro da Saúde da Etiópia entre 2005 e 2012 e ministro das Relações Exteriores do país entre 2012 e 2016.
















