O Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, foram declarados Patrimônio Mundial Cultural pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A candidatura conjunta, apresentada sob a designação Teatros da Amazônia, foi aprovada na madrugada desta segunda-feira (27) durante a 48ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em Busan, na Coreia do Sul, segundo a Agência Brasil e a Prefeitura de Manaus.

É a primeira vez que um bem cultural localizado na Região Norte do país entra na Lista do Patrimônio Mundial. Com a nova inscrição, o Brasil passa a somar 26 sítios reconhecidos pela Unesco — 16 culturais, nove naturais e um misto —, ao lado de nomes como Brasília, Ouro Preto e os centros históricos de Salvador e de São Luís.

A candidatura foi apresentada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores e com a colaboração dos governos do Amazonas e do Pará e das prefeituras de Manaus e Belém. Segundo o presidente substituto do Iphan, Deyvesson Israel Alves Gusmão, em declaração à CNN Brasil, "a candidatura integra os dois teatros a partir da perspectiva histórica", destacando a complementaridade entre as duas casas e a ligação permanente entre a Amazônia, o Brasil e o mundo.

Uma missão oficial do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), órgão que assessora a Unesco, esteve em Manaus em setembro de 2025 para avaliar a proposta, informou a Prefeitura de Manaus. A cidade participou do processo por meio do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) e da ManausCult, com levantamentos cadastrais, dados de planejamento urbano e documentação do programa de revitalização "Nosso Centro". "Essa é uma grande notícia para Manaus. O Teatro Amazonas chegar a esta etapa da candidatura, ao lado do Theatro da Paz, mostra a força da nossa história", afirmou o diretor-presidente do Implurb, Antonio Peixoto.

Duas casas erguidas no auge da borracha

Os dois teatros foram inaugurados no fim do século 19, quando a Amazônia vivia um ciclo de intensa riqueza gerado pela extração do látex e pela comercialização da borracha. Embora 18 anos separem as inaugurações, as casas compartilham materiais europeus, inspiração arquitetônica e o mesmo propósito: transformar as capitais amazônicas em pontos do circuito cultural internacional. Foi essa proximidade histórica que sustentou a candidatura conjunta.

O Theatro da Paz, em Belém, foi inaugurado em 1878, a partir do projeto do engenheiro José Tibúrcio Pereira Magalhães, inspirado no Teatro alla Scala, de Milão. As obras correram entre 1869 e 1874, mas a inauguração só ocorreu depois do encerramento de um inquérito que apurava denúncias sobre custos da construção, conforme registro da Agência Brasil. O projeto misturou o estilo neoclássico a elementos amazônicos e previu um fosso de orquestra sob o qual foi instalada uma caixa d'água de 40 mil litros, que abastecia o sistema de resfriamento e ajudava na acústica. A casa é considerada o primeiro teatro de ópera da Amazônia e um dos primeiros teatros líricos do país.

Já o Teatro Amazonas foi inaugurado em 1896, no Centro Histórico de Manaus, com projeto do deputado provincial Antônio José Fernandes Júnior, escolhido em 1883 pelo Gabinete Português de Engenharia e Arquitetura de Lisboa. A construção foi coordenada pelo arquiteto italiano Celestial Sacardim, em estilo renascentista, com a maior parte do material importado da Europa — caso das 36 mil peças nas cores da bandeira brasileira, vindas da Alsácia, na França, que formam a cúpula central. A decoração interna ficou a cargo do pernambucano Crispim Amaral, e o italiano Domenico de Angelis assinou o Salão Nobre, incluindo o afresco "A Glorificação das Bellas Artes na Amazônia". O teatro preserva boa parte dos elementos originais e é tombado pelo Iphan desde 1966.

O que muda com o título

O reconhecimento como Patrimônio Mundial não transfere a gestão dos bens para a Unesco: os teatros seguem sob responsabilidade dos governos estaduais e municipais, com o Iphan na coordenação federal da preservação. O título, porém, cria obrigações de conservação monitoradas internacionalmente e costuma funcionar como vitrine turística, ampliando a visibilidade das duas capitais no circuito cultural global — efeito já observado em outros sítios brasileiros da lista.