A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) se encerrou no domingo (26) com cerca de 40 mil pessoas circulando pela cidade fluminense ao longo de cinco dias de programação, entre 22 e 26 de julho. O número é uma estimativa preliminar da Prefeitura de Paraty, divulgada no balanço do encerramento, e representa alta de aproximadamente 17% sobre as 34 mil pessoas registradas em 2025 — o que faz de 2026 a maior edição já realizada pela festa.

A curva de crescimento é consistente: foram 27 mil pessoas em 2023 e 30 mil em 2024. Segundo o balanço, as pousadas do centro histórico expandido chegaram a 100% de ocupação, com 50 estabelecimentos parceiros, enquanto a programação paralela se espalhou por 46 casas espalhadas pela cidade. O Programa Educativo alcançou 15 mil pessoas, e as transmissões pelo YouTube somaram cerca de 70 mil visualizações.

Os números financeiros também vieram na prestação de contas preliminar: a edição custou R$ 11,7 milhões. Pela Lei Rouanet, o projeto tinha R$ 15 milhões aprovados, mas captou efetivamente R$ 3,35 milhões — o restante veio de outras fontes de patrocínio e receita própria.

Orides Fontela no centro e Angela Davis com fila

A homenageada da edição foi a poeta Orides Fontela (1940-1998), conhecida pelo rigor formal e pela concisão. A curadoria, assinada por Rita Palmeira, batizou cada uma das 21 mesas da programação principal com um verso da autora. Sob a direção artística de Mauro Munhoz, a festa incluiu ainda a Flipinha, a FlipZona, a Flip+, a Flip Educa e a Praça Aberta.

O momento de maior procura foi a mesa da ativista e filósofa norte-americana Angela Davis, no sábado (25). O encontro "América e África: uma conversa Atlântica", mediado pela jornalista Flávia Oliveira, precisou ser transferido para uma tenda montada no Sesc Caborê porque a Casa do Sesc, no centro histórico, não comportava a demanda: os 700 ingressos distribuídos on-line se esgotaram em minutos. O escritor nigeriano Wole Soyinka, primeiro africano a vencer o Nobel de Literatura, era esperado na conversa, mas não compareceu por questões de saúde.

No palco, Davis criticou a gentrificação que atinge cidades históricas como Paraty. "Tentam criar meios para ganhar mais lucro, tirando as pessoas das suas terras", afirmou, segundo a Agência Brasil. Ela também tratou de sua formação política — "o internacionalismo foi minha primeira iluminação" — e disse que o fascismo está em ascensão na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, "mas não entre o povo".

Outro nome bastante procurado foi o da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia, que apresentou na quinta-feira (23) o livro "Pela mão do povo — Democracia e voto no Brasil", escrito com a cientista política Heloisa Starling e a historiadora Nayara Henriques Pinto. "Está em nossas mãos a democracia, não está nos palácios, não está nos gabinetes", disse a ministra, que também afirmou não acreditar "que alguém em sã consciência tenha dúvida sobre a urna".

Guimarães Rosa e o sertão mineiro aos 70 anos

A edição reservou uma frente inteira de programação gratuita, no Sesc Santa Rita, para os 70 anos de "Grande Sertão: Veredas", romance de Guimarães Rosa publicado em julho de 1956 e ambientado no sertão de Minas Gerais. O escritor Itamar Vieira Junior, autor de "Torto Arado", conduziu conferência sobre linguagem, memória e território na obra; o violeiro Paulo Freire apresentou o espetáculo "Viola, Rosa e Sertão", inspirado em sua experiência no sertão do Urucuia; e Bruna Lombardi e Tati Bernardi conversaram sobre a minissérie de 1985.

No sábado, a escritora Conceição Evaristo, a ministra Cármen Lúcia e a jornalista Miriam Leitão se reuniram na Casa Brasil de Histórias para discutir ética, linguagem e justiça no romance. Segundo o biógrafo de Rosa, Leonêncio Nossa, "a musicalidade no linguajar dos personagens causa muita empatia", e o livro "deve ser lido em voz alta". O próprio autor rebatia as críticas à sua linguagem com uma frase direta: "Os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás, falam assim".

Na livraria oficial da festa, operada pela Livraria da Travessa, o título mais vendido foi "O Século dos Imbecis", de Valter Hugo Mãe, seguido por "Amar é Inadiável", de Socorro Acioli, e "Os Imortais", de Paulliny Tort. O livro de Cármen Lúcia, Heloísa Starling e Nayara Henriques apareceu em quarto lugar. Entre os autores mais vendidos, Socorro Acioli liderou, à frente de Valter Hugo Mãe e da homenageada Orides Fontela.