O governo brasileiro acionou o protocolo diplomático no domingo (26) para reagir às declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, feitas um dia antes na convenção nacional do PL, em São Paulo. O Itamaraty convocou o embaixador argentino no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, para dar explicações e, antes disso, chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli.

No jargão diplomático, chamar um embaixador para consultas é um gesto formal de insatisfação — um degrau abaixo de uma nota de protesto, mas suficiente para registrar desconforto na relação bilateral entre os dois maiores países do Mercosul.

O estopim foram os ataques feitos por Milei no palco do estádio do Pacaembu, no sábado (25). O argentino chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de "lixo" depois de ter tido negado um pedido para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ser condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. Milei também se referiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "condenado" — as condenações do petista foram anuladas pelo próprio Supremo — e classificou a punição imposta a Bolsonaro como perseguição.

Fachin rebate e defende independência do Judiciário

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, classificou as falas como desrespeitosas a um magistrado brasileiro e afirmou que manifestações desse tipo são incompatíveis com a relação entre Estados soberanos, reforçando a independência do Judiciário.

O episódio ocorre em um momento já tensionado da política externa brasileira, que negocia com Washington a retirada das sobretaxas impostas às exportações nacionais. Milei, alinhado à direita continental, apresentou sua ida ao Pacaembu como apoio à chamada "onda azul" de governos conservadores na América do Sul. No evento, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, entregou ao argentino a Ordem do Ipiranga, principal honraria do estado.

Convenção oficializa Flávio e deixa vice em aberto

A convenção que serviu de palco à crise diplomática tinha outro objetivo central: oficializar o senador Flávio Bolsonaro como candidato do PL à Presidência da República em 2026. Diante de milhares de apoiadores, o partido buscou consolidar o filho mais velho do ex-presidente como herdeiro político do bolsonarismo, já que Jair Bolsonaro está inelegível.

A chapa, no entanto, segue incompleta. O PL não definiu o candidato a vice e trata a vaga como moeda de troca nas negociações com partidos do Centrão — União Brasil e Progressistas ainda avaliam se apoiam a candidatura. Nomes como Daniella Marques e Clarissa Tércio circulam entre as possibilidades.

Outra ausência marcou o encontro: Michelle Bolsonaro não subiu ao palco e permaneceu em Brasília acompanhando o marido, enviando apenas uma mensagem em vídeo de apoio à candidatura. A ausência veio depois de semanas de atritos públicos com Flávio em torno da articulação do partido no Ceará. A convenção também exibiu vídeos produzidos com inteligência artificial, incluindo imagens que simulavam Flávio ao lado de Milei.

O discurso de um chefe de Estado estrangeiro em convenção partidária brasileira abre um precedente delicado, a menos de três meses do início oficial da campanha eleitoral.