A maior safra de café já projetada para o Brasil está chegando ao terreiro mais devagar do que os cafeicultores gostariam — e isso tem preço. No Sul de Minas, principal região produtora do país, a temporada chegou à metade do calendário com apenas 30% da colheita concluída, contra 52% na mesma etapa do ano passado, segundo levantamento do programa ATeG com 32 técnicos de campo que acompanham cerca de 900 propriedades.

O vilão foi a chuva fora de hora. Em Varginha, choveu 64 milímetros em junho de 2026, o dobro da média histórica de 32,4 milímetros para o mês, de acordo com dados da Fundação Procafé. O resultado aparece no campo: a colheita está atrasada em 97% das propriedades monitoradas. Para 37% dos técnicos ouvidos, o atraso chega a 20 dias; outros 37% relatam até 15 dias, e 15% falam em até dez dias.

O problema não é só de agenda. "Ela causa queda dos frutos no chão, o que dá mais trabalho para serem retirados", explicou Guilherme Ferreira Marques, supervisor do ATeG, ao descrever o efeito da chuva. Os grãos que já estavam no terreiro se molham e demoram mais a secar nas fazendas sem secador — e o excesso de umidade abre caminho para o ataque de fungos, o que derruba a qualidade da bebida. O levantamento registrou ainda 213 propriedades com floração antecipada, um sinal de desregulação do ciclo da planta.

Entre os produtores, quem se antecipou respirou aliviado. "Quase toda a lavoura de 4 mil pés de cafés floriu em junho. A nossa sorte é que a colheita estava adiantada", contou o cafeicultor Wandilson Castro Lacerda, da Fazenda Lagoinha, em Lagoa da Prata.

Volume recorde, com Minas puxando a fila

O atraso na lavoura contrasta com o tamanho da safra. A Conab projeta uma produção nacional de 66,7 milhões de sacas de 60 quilos em 2026, alta de 18% sobre 2025. Se confirmado, o número supera o recorde anterior da série histórica, de 63,08 milhões de sacas em 2020. O arábica deve somar 45,8 milhões de sacas no país (+28%) e o conilon, 20,9 milhões (+0,8%).

Minas Gerais, maior produtor do Brasil, responde sozinho por 33,4 milhões de sacas, um avanço de 29,8% em relação ao ciclo anterior. O arábica mineiro deve chegar a 32,8 milhões de sacas (+30,3%) e o conilon, a 629,3 mil sacas (+7,7%). O salto mais forte vem do Cerrado Mineiro, com crescimento de 60,2% e 7,6 milhões de sacas, além de grãos de peneira maior. A Conab credita o desempenho à bienalidade positiva do cafeeiro, à melhor distribuição de chuvas nos meses que antecederam a florada e ao clima favorável até março — sem contar os preços internacionais altos, que estimularam os produtores a investir em tratos culturais.

Mercado reage ao gargalo

A tensão entre volume grande e oferta que demora a chegar se refletiu na bolsa. O contrato futuro do café arábica na ICE, em Nova York, era negociado a 324,94 centavos de dólar por libra-peso nesta segunda-feira (27), com alta de 3,46% no dia e de 16,97% no acumulado do mês, segundo dados do Trading Economics. Em 12 meses, a valorização é de 7,7%. O patamar ainda está distante da máxima histórica de 440,85 centavos, registrada em fevereiro de 2025.

No comércio exterior, o ciclo anterior fechou em baixa: o Brasil exportou 38,5 milhões de sacas na safra 2025/26, queda de 15,7% ante o ciclo 2024/25, conforme balanço divulgado pelo Cecafé em 15 de julho. A safra recorde que está sendo colhida agora é a aposta do setor para recompor esse volume — desde que o café chegue ao mercado com a qualidade que o comprador espera.