A Argentina começa neste mês a pagar o principal de uma dívida de US$ 57 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Os desembolsos somam US$ 3 bilhões neste ano, mais que dobram em 2027 e chegam a US$ 9,5 bilhões entre 2028 e 2031.
O calendário chega dois anos depois de o presidente Javier Milei aplicar um dos ajustes fiscais mais rígidos da história recente do país.
Em agosto, a inflação mensal argentina caiu a 1,7%, a menor taxa em mais de um ano. O índice em 12 meses recuou a 33,5%, ante mais de 200% no início do governo, em dezembro de 2023.
Quanto custou o ajuste que derrubou a inflação
O ajuste custou emprego e renda. O setor privado formal perdeu 230 mil postos de trabalho, queda de 3,6%, enquanto o governo eliminou 86 mil cargos públicos e o país fechou cerca de 30 mil empresas industriais desde 2024.
A pobreza recuou a cerca de 28% da população, um terço abaixo do início do mandato de Milei.
Ainda assim, 20 milhões de argentinos têm algum tipo de dívida e 6 milhões estão em atraso nos pagamentos. Os juros de cartão de crédito argentino somam cerca de 70% ao ano, bem acima da inflação de 30% esperada para 2026.
É como se estivéssemos financiando nossa própria autodestruição.
afirmou Martín Rapallini, presidente da União Industrial Argentina, ao comentar o efeito do juro alto sobre a produção do país.
Por que a dívida do Brasil não aperta do mesmo jeito
A dívida do Brasil não tem o mesmo risco cambial da argentina. A maior parte é emitida em reais e negociada no mercado interno, enquanto a fatia em moeda estrangeira caiu a poucos pontos percentuais do total nos últimos anos, segundo dados do Tesouro Nacional.
Ainda assim, o FMI projeta que a dívida bruta brasileira chegue a 96,5% do PIB em 2026 e a 100% do PIB em 2027, patamar que a Instituição Fiscal Independente considera sustentável só com superávit primário de 2,1% do PIB ao ano.
O indicador oficial do Banco Central já apontava dívida bruta em alta antes mesmo dessa projeção do Fundo.
Como o Brasil segue com o maior juro real do mundo, mesmo o custo de rolar dívida em reais pesa no orçamento público.
O que acontece agora
Pelo cronograma do FMI, os pagamentos argentinos saltam de US$ 3 bilhões neste ano para mais do dobro em 2027. Entre 2028 e 2031, a conta se mantém em pelo menos US$ 9,5 bilhões por ano, com vencimentos programados até 2042.
São 23 programas com o FMI em quase 70 anos, sinal de que recorrer ao Fundo virou rotina para a economia argentina.
O comércio entre os dois países já sente esse aperto: o PIB argentino volta a crescer, mas as compras do país ao Brasil caem em meio à renda ainda pressionada das famílias argentinas.


























