O fundo Betel, do banco Digimais, do bispo Edir Macedo, tinha R$ 271,4 milhões aplicados em títulos do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) obtidos pela Folha de S.Paulo. Os mesmos dados mostram que o fundo era administrado pela Reag, gestora que também administrava fundos ligados ao Banco Master com papéis do mesmo tipo.

Procurado, o Digimais afirmou que o fundo Betel não integra mais seu portfólio desde outubro de 2025. O banco não é réu em ação penal nem foi denunciado, e nega irregularidade. A Reag, procurada, não respondeu.

O que a apuração mostra

Segundo a Folha, fundos ligados ao Master compravam títulos do Besc — que hoje têm valor de mercado próximo de zero — registrando-os por valores muito superiores, o que, de acordo com a reportagem, tinha o efeito de inflar balanços e sustentar captação por CDBs. Essa dinâmica é objeto de apuração das autoridades e não há, até aqui, conclusão sobre responsabilidades.

No caso do Digimais, os dados da CVM indicam que o banco era, até janeiro, o único cotista do fundo Betel, e que todo o patrimônio do fundo, R$ 271,4 milhões, estava em cártulas do Besc — o equivalente a 82% do patrimônio líquido do banco, de R$ 331 milhões no último balanço.

A Reag foi liquidada pelo Banco Central em janeiro por violação de normas do sistema financeiro. João Carlos Mansur, dono da gestora, apresentou proposta de delação premiada à PGR, ainda sem decisão, em meio à crise que paralisou o STF. Proposta de delação não equivale a admissão de responsabilidade de terceiros nela citados.

Não há menção ao fundo Betel no balanço do Digimais nem no conglomerado prudencial da instituição registrado no Banco Central. A resposta do banco, de que o fundo saiu do portfólio em outubro de 2025, diverge dos dados enviados pela CVM à CPI do Senado, segundo a reportagem.

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O tamanho do rombo no Digimais

O Digimais registrou prejuízo de R$ 581,4 milhões no primeiro semestre, revertendo o lucro de R$ 42,1 milhões do mesmo período de 2025, segundo o sistema IFData do Banco Central.

O resultado derrubou o índice de Basileia da instituição a -4,62%, quando o mínimo exigido pelo BC é de 10,5%. Em junho, o banco foi alvo da Operação Miragem da Polícia Federal, que apura possíveis fraudes na instituição. A investigação está em curso e não há acusação formal contra o Digimais ou seus controladores.

A saída em negociação é a venda ao BTG Pactual, anunciada em abril, com participação do Fundo Garantidor de Créditos e leilão no modelo “stalking horse”, em que outros interessados podem cobrir a oferta.

O ponto em aberto

A Reag administrava fundos com o mesmo tipo de título do Besc tanto no Master quanto no Digimais, e o Banco Central já a liquidou por violar normas do setor.

A pergunta que fica é quantas outras instituições financeiras menores tiveram fundos geridos pela gestora com ativos avaliados da mesma forma, e se o Banco Central já mapeou esses casos.