O banco Digimais, do bispo Edir Macedo, comprou R$ 271,4 milhões em papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) pelo fundo Betel, segundo dados da CVM obtidos pela Folha. A aplicação segue o modelo do Banco Master.
Fundos ligados ao Master compravam títulos do Besc, que não valem praticamente nada no mercado, como se valessem milhões, para inflar artificialmente os balanços. Os dados inflados permitiam retiradas vultosas via empréstimos e sustentavam a captação por CDBs.
Por que as duas operações se parecem
Os fundos do Master e do Digimais eram administrados pela mesma gestora, a Reag, liquidada pelo Banco Central em janeiro por violar normas do sistema financeiro.
O Digimais era, até janeiro, o único cotista do fundo Betel. Todo o seu patrimônio, R$ 271,4 milhões, estava aplicado em cártulas do Besc, o equivalente a 82% do patrimônio líquido do banco, de R$ 331 milhões no último balanço.
Procurada, a Reag não respondeu. João Carlos Mansur, dono da gestora, apresentou proposta de delação premiada à PGR, ainda sem decisão em meio à crise que paralisou o STF.
Não há menção ao Fundo Betel no balanço do Digimais nem no conglomerado prudencial da instituição registrado no Banco Central. Procurado, o banco afirmou que o Betel não integra mais seu portfólio desde outubro de 2025.
Essa resposta contradiz os dados enviados pela CVM à CPI do Senado.
O tamanho do rombo no Digimais
O Digimais registrou prejuízo de R$ 581,4 milhões no primeiro semestre, revertendo o lucro de R$ 42,1 milhões do mesmo período de 2025, segundo o sistema IFData do Banco Central.
O resultado derrubou o índice de Basileia da instituição a -4,62%, quando o mínimo exigido pelo BC é de 10,5%. Em junho, o banco foi alvo da Operação Miragem da Polícia Federal, que apura possíveis fraudes na instituição.
A saída em negociação é a venda ao BTG Pactual, anunciada em abril, com participação do Fundo Garantidor de Créditos e leilão no modelo “stalking horse”, em que outros interessados podem cobrir a oferta.
O ponto em aberto
A Reag administrava fundos com o mesmo tipo de papel podre tanto no Master quanto no Digimais, e o Banco Central já a liquidou por violar normas do setor.
A pergunta que fica é quantas outras instituições financeiras menores tiveram fundos geridos pela gestora com ativos igualmente inflados, e se o Banco Central já mapeou todos esses casos antes de novos rombos aparecerem.


























