O prazo de adesão ao Desenrola 2.0 foi prorrogado até 31 de agosto, segundo o Ministério da Fazenda. A extensão chega no mesmo mês em que o Banco Central registrou a maior inadimplência bancária da série histórica iniciada em 2011: 4,9% do crédito total em julho, ante 4,7% em maio.

O crédito livre, linha sem garantia mais usada por famílias, chegou a 6,4% de atraso acima de 90 dias, o pior nível já registrado. Entre pessoas físicas, a taxa foi de 5,81%, também recorde da série. Entre empresas, ficou em 3,31%, acima do pico de junho (3,2%), que já era o maior desde novembro de 2017.

Desde que o Desenrola 2.0 começou, em maio, o programa fechou 3,6 milhões de contratos e renegociou mais de R$ 22 bilhões em dívidas até o fim de junho, segundo o Ministério da Fazenda. Mais de 9 milhões de famílias já aderiram, e a equipe econômica projeta chegar a 10 milhões de beneficiários com a prorrogação.

Quem ainda pode aderir

O programa vale para dívidas contraídas até 31 de janeiro de 2026 e em atraso entre 90 dias e dois anos. Bancos, financeiras e outras instituições credenciadas participam da renegociação, com desconto e parcelamento definidos caso a caso pela instituição credora.

Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a prorrogação não exige novo aporte do Fundo Garantidor de Operações (FGO) nem tem impacto fiscal. A adesão é feita pelo site ou aplicativo do próprio banco ou financeira.

A renegociação, porém, não baixou o custo do crédito novo. A taxa média de juros no crédito livre fechou julho em 47,7% ao ano, mesmo com queda de 2 pontos percentuais sobre junho. O spread bancário, diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa final cobrada do cliente, ficou em 33,8 pontos percentuais, ante 35,7 em junho.

Na prática, quem sai de uma dívida renegociada volta a contratar crédito a um custo que, para boa parte das famílias, dificulta escapar do ciclo de atraso.

O aperto aparece também fora da estatística oficial do BC. Um levantamento da CNDL e do SPC Brasil mostrou que o Brasil chegou a 75 milhões de inadimplentes em julho, com as dívidas mais antigas crescendo mais rápido que as novas, sinal de que parte de quem entra no atraso não consegue sair mesmo com programas de renegociação no ar.

O cenário de crédito caro convive com um mercado de trabalho que já dá sinais de fadiga. Um levantamento recente mostrou que a renda perde força mesmo com o desemprego resistindo aos juros altos, o que reduz a margem das famílias para pagar dívida em atraso.

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Entre quem tem menos acesso ao sistema bancário tradicional, o crédito via Pix expôs 70 milhões de brasileiros a juros que chegam a 140% ao ano, patamar bem acima da média do crédito livre medida pelo BC.

O ponto em aberto

A prorrogação amplia o alcance do Desenrola 2.0, mas não altera o que sustenta a inadimplência em recorde: o custo do crédito novo. Enquanto o spread bancário seguir acima de 30 pontos percentuais, quem renegocia uma dívida velha tende a encontrar crédito novo quase tão caro quanto o anterior.

O Ministério da Fazenda ainda não informou se haverá uma nova rodada do programa depois de 31 de agosto.