O fenômeno climático El Niño deve se consolidar de forma mais intensa a partir do segundo semestre de 2026, e o governo já se prepara para elevar a projeção oficial de inflação por causa dele. O Banco Central estima um impacto de 0,3 ponto percentual na inflação deste ano e 0,4 ponto no ano que vem.

"A gente já esperava um El Niño mais agressivo, mas agora esse cenário está se consolidando de forma mais robusta", disse Débora Freire, secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, em 1º de julho.

A nova projeção do governo deve superar o teto da meta de inflação, de 4,5%, mas ficar abaixo dos 5,33% estimados pelo mercado no boletim Focus, do Banco Central.

Parte da pressão vem da conta de luz. Mais de 60% da matriz elétrica brasileira depende de hidrelétricas, e a seca associada ao El Niño reduz o nível dos reservatórios.

Isso obriga o país a acionar termelétricas, mais caras, o que pode elevar a bandeira tarifária cobrada do consumidor.

O efeito no prato do brasileiro

A outra frente de pressão é a safra. Café, soja, milho, trigo, arroz e feijão estão entre as culturas mais sensíveis ao fenômeno, segundo estudos do setor agrícola.

Estimativas econômicas apontam que o El Niño pode adicionar entre 1 e 3,4 pontos percentuais à inflação de alimentos.

O efeito não é uniforme pelo país. Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste devem sofrer com seca mais prolongada na safra de verão, o que prejudica o plantio de soja e milho.

No Sul, o padrão se inverte. A previsão é de chuvas mais fortes no inverno e na primavera.

Como o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de alimentos, uma quebra de safra por aqui pressiona preços não só no mercado interno, mas também no internacional.

O que ainda está em aberto

O tamanho exato do impacto na inflação de 2026 depende de quanto o El Niño vai se intensificar nos próximos meses, e de quanto disso chega ao bolso do consumidor.

A distância entre a projeção do governo, pouco acima de 4,5%, e a do mercado, de 5,33%, mostra que essa conta ainda não está fechada.