Um estudo conduzido por pesquisadores de Harvard sugere que corações de doadores mais velhos, ao serem transplantados em pacientes mais jovens, passam por um rejuvenescimento parcial, tornando-se biologicamente mais parecidos com o organismo de quem os recebeu, segundo dados preliminares divulgados nesta semana.
O inverso também aconteceria: quando o doador é jovem e o receptor é mais velho, o coração recebido tenderia a "envelhecer", segundo o estudo.
O trabalho foi coordenado por Jesse Poganik, da Universidade Harvard, e publicado em versão preliminar na plataforma bioRxiv em 17 de setembro, antes de passar pela revisão por pares que confere a chancela de periódicos científicos. Detalhes foram divulgados também pela revista britânica Nature.
As primeiras pistas vieram de experimentos com camundongos. Depois, a equipe verificou sinais parecidos em um pequeno grupo de pacientes humanos transplantados. Por enquanto, as conclusões valem só para transplantes de coração.
Quantos casos humanos o estudo analisou?
Os pesquisadores analisaram 11 casos de transplante cardíaco humano com grande diferença de idade entre doador e receptor, segundo o preprint publicado no bioRxiv.
Nos casos em que o coração mais velho foi parar num corpo mais jovem, a diferença de idade chegava a 24 anos; no sentido oposto, passava de 38 anos. Os números ainda são pequenos para conclusões definitivas, reconhecem os próprios autores.
O estudo já está confirmado?
Não. Os achados mostram uma associação entre o transplante e a mudança de idade biológica, não uma prova de que o corpo do receptor causa esse efeito, e o mecanismo por trás do fenômeno ainda é hipótese.
Michael Sagner, do King's College London, consultor em longevidade não envolvido no estudo, apontou limitações no método. Poganik suspeita que o ambiente do receptor ajuda a eliminar danos acumulados ou expõe o coração a sinais imunológicos mais jovens, hipótese ainda sem confirmação experimental.
O que isso significa para quem espera um transplante
Se confirmado em estudos maiores, o achado pode ampliar os critérios de aceitação de órgãos de doadores mais velhos, hoje descartados com mais frequência.
No Brasil, só o Distrito Federal tem 1.902 pessoas na fila por um transplante.
A recusa da família barra 45% das doações de órgãos no país, outro obstáculo recorrente.
Outras frentes tentam driblar a escassez: o Brasil já iniciou a criação de porcos clonados para doação de órgãos.






























