O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem grandes chances de não reconhecer a eleição brasileira caso Luiz Inácio Lula da Silva vença por margem apertada neste domingo (4). O alerta é de Nick Zimmerman, ex-diretor da Casa Branca para o Brasil.

Zimmerman foi diretor para o Brasil no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, no governo Obama, e hoje é pesquisador sênior do Inter-American Dialogue. A avaliação consta de entrevista ao podcast "A Máquina", publicada neste sábado (3) pela Folha de S.Paulo.

Segundo ele, o nível de interferência de Trump na eleição brasileira não tem precedentes na história dos Estados Unidos. O efeito muda conforme quem vencer: Lula ou Flávio Bolsonaro.

Se Lula for reeleito, segundo Zimmerman, Trump pode exigir contrapartidas ou impor sanções como condição para reconhecer a apuração das urnas. Se Flávio Bolsonaro vencer, o americano tende a cobrar limites ao acesso da China a infraestrutura e minerais críticos no Brasil.

"Enxergo, sim, não há dúvida de que há uma tentativa de interferir na eleição brasileira. O governo Trump já tem um histórico de interferir em eleições", afirmou Zimmerman.

O ex-assessor cita dois exemplos recentes de pressão americana: a promessa de US$ 20 bilhões à Argentina na véspera das eleições legislativas, e a ameaça de cortar ajuda externa a Honduras caso o candidato preferido de Trump não vencesse.

No caso brasileiro, ele cita o tarifaço do ano passado, a sanção Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, que classifica como esforços para ajudar politicamente a família Bolsonaro.

Zimmerman contrasta a postura atual com a de presidentes americanos anteriores. Segundo ele, nem Bill Clinton, nem George W. Bush, nem Barack Obama apoiaram publicamente candidatos de outros países.

A regra, segundo ele, era clara: Estado para Estado, nunca partido para partido.

O que diz a leitura mais cautelosa?

Nem todo analista trata o risco como iminente. Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, afirma que ignorar a tensão bilateral atual é erro, mas tratar a recusa formal como certa também seria um exagero.

Coimbra descreve a recusa total de reconhecimento como um passo extremo e contraproducente para os próprios interesses americanos. Para ele, cenários intermediários são mais prováveis: demora no reconhecimento, narrativa dura durante a campanha e sanções seletivas. São três estágios possíveis, aponta.

O governo brasileiro tenta responder a esse cenário com o que chama de blindagem contra interferência externa no pleito, segundo reportagem do New York Times.

A tensão bilateral tem cronologia própria: em maio, os EUA classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas; em agosto, revogaram o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti.

O cenário é bem diferente do de 2022. Naquele ano, o governo Biden chegou a enviar diplomatas e militares para cobrar das Forças Armadas brasileiras o reconhecimento da vitória de Lula.

Hoje é a própria Casa Branca que questiona o sistema eleitoral brasileiro. Trump chamou o processo judicial contra Jair Bolsonaro de "caça às bruxas" e questionou se o Judiciário comprometeria eleições livres e justas em 2026.

A Abin já havia classificado como interferência confirmada dos EUA e da Rússia o movimento, em relatório enviado ao Planalto e ao TSE.

O que acontece agora

O primeiro turno acontece neste domingo (4), com votação até as 17h e apuração a partir do fechamento das urnas. Sem maioria absoluta de votos válidos, a disputa vai a um segundo turno, previsto para o fim de outubro.

Só depois da apuração ficará claro qual dos dois cenários traçados por Zimmerman se confirma: pressão sobre Lula ou cobrança a Flávio Bolsonaro. A lista de sanções dos EUA a brasileiros ligados a facções segue em vigor desde setembro.