Os Estados Unidos fecharam nesta terça-feira (21) uma parceria entre a americana Crusoe e a paraguaia Araico para construir um data center abastecido por energia da usina de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai. O Brasil não foi citado no anúncio.

O acordo foi firmado entre a Crusoe, que desenvolve infraestrutura de computação de alto desempenho, e a Araico, desenvolvedora paraguaia de projetos de energia. Segundo o Departamento de Estado dos EUA, a 1ª fase da instalação deve entrar em operação em meados de 2027.

Vista aérea da usina hidrelétrica de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai
A usina de Itaipu tem 14 mil megawatts de capacidade e energia dividida meio a meio entre Brasil e Paraguai (foto de arquivo) Foto: Deni Williams from São Paulo, Brasil/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O anúncio aconteceu durante visita do vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau, ao Paraguai. A viagem foi entre segunda (19) e quarta (21). Landau se reuniu com o presidente Santiago Peña e com o chanceler Rubén Ramírez Lezcano.

O interesse americano não é novo. Em maio de 2025, o secretário de Estado, Marco Rubio, já defendia esse tipo de parceria no Senado dos EUA.

"Temos que discutir como investiremos em países que têm um suprimento de energia capaz de atender a essa demanda. Como, por exemplo, o Paraguai", disse Rubio à Comissão de Relações Exteriores do Senado americano.

Por que o Brasil não participa do acordo?

O Brasil ficou de fora porque, desde 1973, o Tratado de Itaipu reservava ao país a exclusividade sobre o excedente de energia não consumido pelo Paraguai. Um acordo de 2025 revisou essa regra e autorizou os paraguaios a vender energia diretamente a terceiros.

A energia de Itaipu é dividida meio a meio entre os dois países, mas o Paraguai usa só parte da própria cota. O consumo interno paraguaio passou de 10% em 2012 para mais de 30% em 2024.

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Na prática, a decisão sobre o excedente deixou de depender de negociação bilateral com o Brasil.

O restante do excedente agora pode ir a clientes como a Crusoe.

Enquanto isso, o Brasil vive expansão própria de data centers, com projetos que também miram energia barata e abundante.

O tema virou consenso entre os presidenciáveis na eleição deste ano, que defendem atrair mais investimento do setor para o país.

A relação entre Brasil e Paraguai já vinha de atrito. Em julho, o país vizinho entregou nota de repúdio ao embaixador brasileiro por causa de uma fala do presidente Lula sobre a Guerra do Paraguai.

Reportagens do setor elétrico apontam que autoridades brasileiras já tratam o fim dessa exclusividade como risco. O temor é perder previsibilidade no fornecimento e poder de barganha regional diante do Paraguai.

O que acontece agora

A primeira fase da instalação movida a Itaipu deve entrar em operação em meados de 2027, segundo o Departamento de Estado dos EUA. O comunicado americano não revelou o valor do investimento nem o volume de energia contratado.

O acordo é parte de uma ofensiva maior dos EUA no Paraguai. A americana Uranium Energy Corp. também anunciou investimento de US$ 12 milhões numa concessão de urânio, e os dois países assinaram acordo de assistência para interceptação aérea.