O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quarta-feira (21) que representantes do governo de Donald Trump tomaram parte na eleição brasileira. Cabe aos brasileiros decidir, no domingo (25), se houve interferência americana no pleito entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Em entrevista ao Estado de S. Paulo, o chanceler respondeu assim, ao ser questionado sobre ingerência concreta no pleito: "Tomaram parte, tomaram um lado, fizeram fotografias". Vieira completou que "a imprensa está cheia de artigos dizendo que foram manipulados algoritmos em mensagens".

O desconforto entre o Itamaraty e o governo Trump não é novo. Em julho, Vieira já classificou como ofensivas declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, feitas em meio ao tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros.

Para o ministro, cabe ao eleitor definir o que configura interferência. "Os brasileiros é que vão mostrar o que querem fazer nas urnas, que modelo estão procurando, o que consideram que é interferência, o que é intromissão e o que não é", disse.

O que diz a carta de Rubio

Rubio enviou a carta a Flávio Bolsonaro em 23 de junho, agradecendo a oferta do senador de montar uma equipe de transição à disposição do governo americano caso ele vença a eleição. O secretário de Estado manifestou otimismo com o pleito de outubro.

Eu nunca vi isso. Na história das relações diplomáticas, em meus 50 anos de carreira, nenhum país fez esse tipo de coisa.

"Você faz transição entre o governo que deixa e o governo que assume. Você cria uma equipe de transição para que seja passado. Isso é normal em todas as democracias. Agora, com um país estrangeiro, para quê?", questionou o chanceler, classificando o episódio como "péssimo".

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Vieira também respondeu à promessa do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, hoje com mandado de prisão em aberto, de fazer uma "faxina" no Itamaraty caso o irmão Flávio seja eleito presidente.

"É péssimo, né? Primeiro, porque não é a forma de se atuar. Em uma democracia, você não ameaça. Você dialoga, conversa, negocia", disse o ministro.

Em reportagem publicada nesta quarta (21), o Repórter Maceió ouviu apoiadores de Flávio Bolsonaro que minimizaram a hipótese de interferência: para eles, a mudança política depende da vontade dos eleitores brasileiros, não de atores externos.

A mesma reportagem cita um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que classificou como "crítico" o risco de influência americana sobre o pleito.

Cita ainda uma investigação da Polícia Federal sobre um projeto de US$ 1 milhão do Departamento de Estado dos EUA voltado a organizações da sociedade civil brasileira. A investigação foi arquivada posteriormente.

A reta final da disputa também ocorre sob escrutínio das redes sociais. Um comitê da Meta reconheceu falhas recorrentes de transparência nas eleições, tema que já havia motivado ações da coligação de Lula contra a plataforma.

O que acontece agora

O segundo turno acontece no domingo (25), quando o eleitorado decide entre Lula e Flávio Bolsonaro. O Itamaraty não indicou se vai adotar alguma medida formal em resposta à atuação de representantes americanos.

A carta de Rubio e as declarações de Eduardo Bolsonaro sobre o Itamaraty seguem repercutindo na campanha, a poucos dias da votação.