O presidente americano Donald Trump disse nesta segunda-feira (19) que era "hora de outra pessoa negociar" pela Ucrânia, atropelando o presidente Volodymyr Zelensky bem no momento em que Kiev mais depende de armas e dinheiro dos Estados Unidos para se defender da Rússia.

Zelensky revidou no dia seguinte (20): acusou os EUA de atrasar deliberadamente a entrega de mísseis interceptadores já pagos por países europeus. Segundo ele, o carregamento está pronto e só falta a assinatura do secretário de Defesa americano, Pete Hegseth.

"Os mísseis estão prontos e já poderiam estar na Ucrânia. Mas, infelizmente, ainda não há autorização", disse o presidente ucraniano. A acusação vem depois de os EUA já terem ameaçado travar o envio de armas por causa dos ataques ucranianos a refinarias russas.

Zelensky disse se dispor a "encontrar Trump no meio do caminho": mesmo sem poder revidar ataques russos à sua infraestrutura energética, ele pediu que os EUA ao menos entreguem os interceptores para que a Ucrânia possa se proteger sozinha.

Por que a tensão piorou justo agora?

A relação azedou depois que Trump flexibilizou sanções contra a Rússia em troca do fornecimento de diesel russo aos mercados mundiais e ao americano. Zelensky chamou o acordo de "indigno" e disse que ele encoraja a Rússia a continuar a guerra.

O mesmo giro diplomático já pressiona o preço do diesel no Brasil, de tão amplo que é o mercado afetado pela decisão americana.

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Por trás da pressa de Washington está o preço dos combustíveis em casa: o diesel bateu recorde de US$ 6,27 o galão nos Estados Unidos em meados de outubro, segundo a American Automobile Association, às vésperas das eleições de meio de mandato.

Uma pesquisa AP-NORC já mostrava 2 em cada 3 adultos americanos desaprovando a condução da economia por Trump.

Quanto dinheiro está em jogo entre EUA, Europa e Ucrânia?

Em 18 de setembro, os EUA aprovaram a venda de US$ 2,68 bilhões em defesa aérea à Ucrânia — paga, como de praxe nesses pacotes recentes, por contribuições europeias, não pelo bolso do contribuinte americano.

Em julho, o Pentágono já havia fechado um contrato de quase US$ 60 bilhões para fabricar mísseis interceptores Patriot, com estoques pressionados pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.

Zelensky pediu agora mais 70 bilhões de euros aos aliados europeus para financiar a guerra em 2027.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, respondeu descartando qualquer recuo: "Não é o momento de retirar nosso apoio à Ucrânia. Não é o momento de aliviar as sanções contra a Rússia".

O ponto em aberto

A disputa pelo petróleo e pelo diesel colocou dois aliados de guerra em lados opostos de um mesmo balcão de negociação com Moscou. A relação está no ponto mais baixo desde o encontro explosivo entre os dois na Casa Branca, 18 meses atrás.

Zelensky diz esperar se reunir com o enviado americano Steve Witkoff e com o genro de Trump, Jared Kushner, "talvez na Noruega nos próximos dias". Nenhuma data foi confirmada, e o histórico recente mostra que acordos de palavra entre os dois lados têm durado pouco.