O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escreveu neste domingo (18) que a França está "em chamas" por causa da imigração, após uma onda de protestos que começou há um mês com a greve de professores. Nenhuma fonte oficial francesa atribui a violência à imigração.

A imigração de pessoas vindas de um mundo completamente diferente, pessoas com ódio no coração, destruiu o que um dia foi um grande país. Fechem as fronteiras.

Os protestos começaram há um mês em escolas da periferia de Paris, contra a falta de professores e a precariedade das salas de aula. O movimento cresceu e passou a reunir também sindicatos, agricultores e ativistas climáticos, em meio a cortes de gastos públicos.

O ministério do Interior francês contabilizou mais de 1.800 detidos e 500 policiais, gendarmes e bombeiros feridos na manifestação de sábado (17), que reuniu entre 550 mil (número do governo) e 800 mil pessoas, segundo a central sindical CGT.

O chefe da polícia de Paris já tinha dito, em outubro, que o protesto estudantil saiu do controle. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu atribuiu a violência à "ultraesquerda" e a criminosos que aproveitam o momento político antes da eleição.

Nenhuma autoridade francesa ligou os protestos à imigração.

O que os números da imigração francesa mostram

A França tem 11,6% de imigrantes na população, segundo o instituto oficial de estatística Insee, a 15ª proporção entre os 27 países da União Europeia, abaixo da média do bloco. O crescimento é lento e vem de décadas, não de um pico recente.

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O percentual passou de 5% em 1946 para 7,4% em 1975, chegou a 8,5% em 2010 e fechou em 11,6% em 2025, segundo a série histórica do Insee. Nenhum salto nessa série coincide com a eclosão dos protestos, motivada pela crise na educação pública.

Não é a primeira vez

Trump já tinha feito a mesma associação em 6 de outubro, dizendo que os protestos eram sobre "o Islã querer tomar conta" do país. A France 24 registrou que nenhum vínculo havia sido estabelecido entre o movimento estudantil e pautas religiosas ou identitárias.

O padrão se repete em outros países europeus. Em 2018, Trump disse que o crime na Alemanha havia subido a níveis inéditos por causa da imigração; o país registrou, naquele mesmo ano, o menor número de crimes desde 1992.

Em 2017, ele citou um ataque ligado a imigrantes na Suécia que não havia ocorrido, e depois admitiu que a fala vinha de uma reportagem da Fox News.

No ano seguinte, descreveu um hospital de Londres como "zona de guerra" por facadas. Levantamentos à época mostravam que a cidade era mais segura que qualquer grande cidade americana.

A onda atual é a pior desde os Coletes Amarelos, e tem origem numa crise fiscal que já preocupa o mercado global, não num debate migratório.

A pergunta que fica

Quatro episódios em uma década seguem o mesmo roteiro: declaração sobre crime ou violência associada a imigrantes, sem dado que sustente o vínculo, contrariada em seguida pelas estatísticas oficiais do próprio país citado.

A acusação chega sempre antes da evidência, e a pergunta que esses casos repetidos deixam é se isso muda da próxima vez.