A França caminha para uma possível crise da dívida pública. O rendimento dos títulos franceses de 10 anos está perto de 5%, maior taxa desde 2002. O país paga hoje mais caro para se endividar do que Grécia e Itália.

A dívida pública francesa soma € 3,5 trilhões (cerca de US$ 4 trilhões), equivalente a 119% do PIB do país. O governo deve pagar € 90 bilhões (cerca de US$ 100 bilhões) só em juros da dívida no próximo ano, segundo projeções citadas pelo InfoMoney.

"Essas altas nos rendimentos dos títulos têm implicações muito reais", disse Mahmood Pradhan, pesquisador da Bruegel e ex-diretor-adjunto do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O spread entre os juros franceses e os títulos alemães, referência de segurança na Europa, saltou para 1,4 ponto percentual. A alta é de cerca de 66% desde o início de outubro, o maior patamar desde 2012.

O spread da Itália sobre a Alemanha já passou de 1,1 ponto.

Por que analistas chamam isso de 'síndrome brasileira'

Gestoras internacionais vêm chamando o quadro francês de "síndrome brasileira". O nome associa a crise a décadas em que o Brasil conviveu com dívida pública alta e desconfiança do mercado sobre sua sustentabilidade, segundo reportagem do NeoFeed.

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O endividamento público brasileiro chegou ao maior nível em quase cinco anos em maio de 2026. Mas o país não enfrenta hoje o mesmo salto de juros que atinge os títulos franceses.

Gestoras como Aberdeen Investments e W1M já compram títulos e crédito corporativo francês mais baratos, apostando em uma correção de preços adiante. A Ninety One aumentou a exposição a crédito europeu de alto risco.

A gestora evita, porém, títulos soberanos franceses até a próxima eleição presidencial do país.

"Não estamos diante de uma repetição do cenário do início" da década de 2010, avaliou Alex Everett, gestor da Aberdeen, citando um respaldo institucional europeu hoje mais sólido.

O efeito nas ruas da França

O ajuste fiscal de € 54 bilhões proposto pelo governo francês para conter o rombo é alvo de protestos recorrentes no país. A França já viu manifestações reunirem até 450 mil pessoas nas ruas em 6 de outubro.

Estudantes chegaram a bloquear escolas e faculdades no país no início do mês. A pressão política se soma à disputa entre polos opostos do espectro francês.

Marine Le Pen, da extrema direita, e Jean-Luc Mélenchon, da extrema esquerda, despontam como vozes fortes num cenário de fragmentação. Uma fala de Le Pen sobre disciplina fiscal, em 6 de outubro, chegou a reduzir temporariamente os rendimentos dos títulos.

Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, e Emmanuel Moulin, presidente do Banco da França, aparecem na cobertura internacional do caso. A crise ocorre num momento em que a dívida pública global caminha para superar 100% do PIB mundial, puxada também pelos Estados Unidos e pelo Japão.