O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o filho Donald Trump Jr. atribuem as vitórias da direita na América Latina ao fim da Usaid, agência de ajuda externa extinta em 2025. A narrativa cresceu após o 1º turno das eleições no Brasil, domingo (4).
Desde que desmantelamos a Usaid, a esquerda não ganhou uma única eleição presidencial na América Latina.
A frase é de Trump Jr., em publicação depois compartilhada pelo pai. Segundo ele, a Usaid financiava ONGs, programas de democracia e redes de ativistas que sempre apoiavam o mesmo lado político.
Ele agradeceu a Elon Musk, ex-assessor especial do pai, por liderar a ofensiva contra a agência. Musk comandou o extinto Departamento de Eficiência Governamental (Doge) dos EUA.
"A Usaid promoveu interferência eleitoral e mudanças de regime ao redor do mundo, causando um conflito enorme", publicou Musk, responsável pelos cancelamentos de contratos e pelas demissões em massa na agência em 2025.
A tese não tem comprovação, segundo especialistas ouvidos pela Folha.
Ela reforça acusações de interferência nas eleições brasileiras de 2022 que o próprio jornal já investigou, sem achar evidências. O tema também rendeu um estudo sobre interferência dos EUA no Brasil e um alerta da Abin sobre o assunto.
"É justamente o contrário", afirma Alex Main, pesquisador do CEPR (Centro de Pesquisa Econômica e Política), sediado em Washington, sobre a ideia de que a Usaid sustentava governos de esquerda na região.
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Main lembra que a agência, alvo de outras suspeitas de interferência eleitoral levantadas por órgãos brasileiros, foi criada em 1961, na Guerra Fria, para fortalecer aliados dos EUA na região.
A maior parte dos recursos da Usaid ia para programas humanitários, mas o financiamento político historicamente apoiava organizações de direita, não de esquerda, segundo o pesquisador.
Como exemplo, ele cita o apoio não militar aos Contras, grupos paramilitares que combatiam o governo sandinista na Nicarágua nos anos 1980.
A Usaid também destinou recursos ao Brasil depois da eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, caso citado como contraponto à tese de que a agência só financiava a esquerda.
Um levantamento do GAO (gabinete de auditoria do Congresso americano) mostra que 6.780 dos 7.510 contratos ativos da Usaid, cerca de 90% do total, haviam sido encerrados até março de 2026.
O valor obrigado nesses contratos somava US$ 79,1 bilhões. A agência deixou de administrar repasses de ajuda externa a partir de julho de 2025.
No Brasil, o resultado do primeiro turno colocou Lula e o candidato Flávio Bolsonaro no segundo turno, marcado para 25 de outubro. A publicação de Trump Jr. tratou o país como uma "disputa ainda pendente" num gráfico sobre a região.
O que acontece agora
O segundo turno no Brasil segue em campanha. Lula e Flávio Bolsonaro disputam apoios e já têm debates confirmados antes da votação de 25 de outubro.
Até agora, nem a Casa Branca nem a Usaid, já extinta, responderam oficialmente às críticas de pesquisadores sobre o histórico da agência na região.





























