Ao menos cinco grupos de empresas estrangeiras e nacionais se articulam para entrar nos negócios de urânio e energia nuclear no Brasil, segundo levantamento da Folha. O governo Lula prepara regras para parcerias privadas com a INB, a estatal do setor.
O levantamento foi feito a partir de dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), de empresas do setor e de comunicados das próprias companhias no exterior.
A movimentação inclui a estatal russa Rosatom, em parceria com ex-dirigentes do governo Jair Bolsonaro, mineradoras australianas e uma companhia com operações nucleares nos Estados Unidos.

Quem são os ex-integrantes do governo Bolsonaro no setor?
O grupo brasileiro Diamante reuniu dois nomes que comandaram a política energética no governo passado. Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia entre 2019 e 2022, preside o conselho da empresa.
Ney Zanella dos Santos, que presidiu a estatal ENBPar, controladora da INB, comanda a NBEPar, braço de negócios nucleares criado pelo grupo Diamante em 2024.
Por meio dela, a Diamante se associou à Rosatom para formar a Nadina Minerals, que pretende desenvolver projetos de mineração no Brasil, incluindo urânio.
Em maio, Bento e Zanella visitaram uma unidade de produção de concentrado de urânio na Rússia. Eles estavam acompanhados de Pedro Kassab, vice-presidente da Diamante e sobrinho de Gilberto Kassab, presidente do PSD.
Além da Diamante, o levantamento identificou a Atlas Critical Minerals, a Core Energy Minerals, a BRE (Brazilian Rare Earths) e a Energy Fuels entre as empresas de olho no setor.
Publicidade
Os projetos vão da pesquisa mineral à recuperação de urânio associado a terras raras, passando por pequenos reatores e geração de eletricidade.
Por que o governo discute abrir o setor a privados?
A exploração de urânio é monopólio da União desde a Constituição de 1988, hoje exercido pela INB (Indústrias Nucleares do Brasil). Uma lei sancionada em dezembro de 2022 ampliou a possibilidade de parceria da estatal com empresas privadas, sem extinguir o monopólio.
O setor aguarda um decreto federal que detalhe como esses negócios poderão funcionar.
A Rosatom já opera com a INB antes mesmo dessa nova movimentação de grupos privados. Em março de 2025, a estatal brasileira contratou a Internexco GmbH, subsidiária da companhia russa, para exportar 275 mil kg de concentrado de urânio extraído em Caetité, na Bahia.
O material segue para conversão e enriquecimento, destinado ao combustível de Angra dos Reis. O Brasil tem reservas estimadas em cerca de 280 mil toneladas de urânio, por volta de 3% do total conhecido no mundo.
A única mina em operação no país é a da INB em Lagoa Real/Caetité, com capacidade de 340 toneladas por ano.
O que acontece agora
O setor nuclear brasileiro também é tema na política. O presidente eleito Flávio Bolsonaro defendeu concluir a usina de Angra 3 com dinheiro privado durante a campanha.
O movimento caminha na mesma direção da abertura que o governo Lula agora regulamenta.
A exploração de terras raras associada ao urânio também já gera disputa em Minas Gerais. Em Poços de Caldas, cidade que vive um novo ciclo mineral com a exploração do minério, a chegada de mineradoras já virou tema de debate local.
Enquanto o decreto federal não sai, a INB segue como intermediária obrigatória de qualquer operação. A estatal também abriu concurso para 55 cargos, com salários de até R$ 8,3 mil.































