O Ministério da Fazenda abriu processo administrativo contra a Blaze para apurar falhas no controle antifraude da plataforma, reveladas no processo movido pelo advogado Willer Tomaz contra a própria casa de apostas. A multa pode chegar a R$ 2 bilhões.

A abertura do processo ocorre num momento em que as casas de apostas de quota fixa já estão proibidas de funcionar no Brasil, por força da medida provisória assinada pelo governo em setembro.

As falhas vieram à tona no processo em que Tomaz, investigado na Operação Sem Desconto sem condenação até o momento, tentou bloquear R$ 145 milhões da Blaze na Justiça paulista.

O pedido foi negado, mas os documentos anexados ao caso expuseram como a casa tratava clientes de alto volume.

Segundo os autos, Tomaz fez 2.145 depósitos na plataforma entre janeiro de 2025 e julho de 2026, somando R$ 325,3 milhões. Ele sacou R$ 180,3 milhões, saldo negativo de R$ 145 milhões.

Nos autos, Tomaz relata que um gerente VIP da Blaze desativou a exigência de verificação facial durante operações feitas em janeiro de 2025, quando a casa passou a operar legalmente no país.

O mesmo gerente ofereceu a ele a opção de movimentar dinheiro com criptomoedas.

Os dois recursos dificultam identificar o responsável pela transação, o que caracterizaria violação às normas contra lavagem de dinheiro do setor de apostas. É esse mecanismo que a Fazenda agora investiga formalmente.

Meu Deus, então aumente o limite para saque. Para R$ 500 mil por saque, senão irá inviabilizar o tamanho do meu jogo. Esse reconhecimento facial está demorando até 1 minuto.

A frase é de Tomaz, em diálogo anexado ao processo judicial contra a Blaze, e mostra a pressão de um apostador de alto volume sobre os próprios controles da plataforma.

Em nota, a Fazenda disse que não compartilha dados do processo porque as investigações seguem em curso. A defesa da Blaze, procurada pela Folha de S.Paulo, não respondeu até a publicação da reportagem.

A Polícia Federal também investiga as movimentações de Tomaz por suspeita de lavagem de dinheiro, dentro da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos de aposentadorias e pensões do INSS.

A defesa de Tomaz nega lavagem de dinheiro. Diz que as movimentações ocorreram em conta bancária própria, "de forma transparente e rastreável, sem qualquer ocultação ou dissimulação de origem ou destino de recursos".

Por que este caso específico

A Justiça já havia negado, na terça-feira (29), o pedido de Tomaz para bloquear os R$ 145 milhões que ele diz ter perdido na Blaze. Tomaz é apontado como próximo do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

Ele já apareceu em reportagem sobre voos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro. O novo processo da Fazenda, porém, mira a conduta da própria Blaze, não a de Tomaz.

A MP das bets, assinada por Lula em 25 de setembro, já prevê multas de até R$ 50 milhões para empresas que descumprirem a proibição. O novo processo da Fazenda usa outro fundamento legal, ligado a falhas de prevenção à lavagem de dinheiro.

O que acontece agora

O processo administrativo da Fazenda segue sem prazo divulgado para conclusão. Enquanto isso, a Blaze e as demais operadoras de apostas de quota fixa têm até 5 de outubro para interromper suas operações no Brasil.