Um incêndio destruiu, na tarde desta quarta-feira (30), a estátua da Feiticeira, símbolo de 3,5 metros erguido em 2010 na Pedra da Feiticeira, em São Vicente, no litoral de São Paulo. Ninguém ficou ferido, e a causa ainda não foi determinada.

A Prefeitura de São Vicente não respondeu aos pedidos de posicionamento até a última atualização das reportagens locais. O caso não tem, até agora, nenhum elemento oficial que o ligue a motivação religiosa.

Mas ele ocorre numa semana em que o tema ganhou peso institucional. No mesmo dia do incêndio, a Polícia Federal abriu inquérito sobre ataques a imagens religiosas em vários estados, a pedido do ministro Flávio Dino, do STF.

Dino citou casos ocorridos entre março e setembro deste ano envolvendo vandalismo e destruição de imagens de santos católicos, além de ataques contra orixás e símbolos ligados à Umbanda, em diferentes regiões do país.

Os números oficiais mostram onde esses ataques mais se concentram, e não é um padrão novo. O Disque 100 registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e o mesmo mês de 2026, ante 2.472 no ano anterior.

São Paulo lidera a lista de estados com mais denúncias, com 667 casos, à frente do Rio (446), de Minas Gerais (323) e da Bahia (211). As religiões de matriz africana concentram a maior parte: Umbanda soma 228 denúncias, e Candomblé, 161.

Um levantamento do próprio ministério com 255 terreiros, divulgado em novembro de 2025, encontrou um padrão parecido: 76% relataram já ter sofrido racismo religioso, e 80% disseram que algum membro da comunidade já foi vítima direta de violência.

A distinção entre racismo religioso e intolerância religiosa ainda vai ser definida pela PF caso a caso, conforme avança o inquérito aberto a pedido de Dino.

Nem toda cobertura sobre religiões de matriz africana é sobre ataque: Salvador recebe, em outubro, um encontro nacional de Umbanda com show aberto ao público.

O ponto em aberto

A Pedra da Feiticeira não é, em si, um símbolo de religião de matriz africana: a escultura remete a uma lenda local sobre uma mulher que esperou um marinheiro português.

A pergunta que o inquérito da PF deve responder é se o episódio de São Vicente se soma, por coincidência de calendário, à onda que os números já mostravam antes do fogo, ou se não guarda relação alguma com ela.