Baixo financiamento, infraestrutura precária e falta de acordos políticos travam a meta da Venezuela de virar uma "potência gasífera", afirmaram representantes do setor de energia nesta quarta-feira (30), em Caracas, durante a Cúpula Internacional de Petróleo e Gás do país, a VIOGS 2026.
A brasileira Eneva, maior operadora privada de gás natural do país, apostou nesse mercado. Em setembro, a empresa assinou memorando de entendimento com a americana Halliburton para buscar oportunidades de óleo e gás na Venezuela.

Francisco Martínez, gerente da Cardón IV, campo operado pela espanhola Repsol, disse que a infraestrutura de transporte de gás precisa melhorar. Segundo ele, o campo produz 580 milhões de pés cúbicos de gás por dia, "um terço do que é produzido no país".
Erwin Hernández, diretor-geral de Hidrocarbonetos do Grupo Valesco, apontou outro gargalo: das 118 plantas compressoras de gás em Monagas, epicentro da produção venezuelana, apenas 35 funcionam.
Por que a Venezuela não decola no gás
A Venezuela não decola no gás porque falta investimento em infraestrutura de transporte e compressão. Um projeto-chave, o gasoduto binacional Antonio Ricaurte, que liga o país à Colômbia, está parado há anos por falta de acordo político entre os dois governos.
"Deve ser reparado e reaberto o mais rápido possível", disse Luz Stella Murgas, presidente da Naturgas, associação colombiana do setor de gás.
O projeto exige licença do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos e um investimento mínimo de US$ 66 milhões (R$ 341,9 milhões), segundo Sandra Conde, do Banco de Desenvolvimento da América Latina.
A Venezuela tem gás de sobra no papel, mas falta estrutura para tirá-lo do chão e vender.
Por que a Eneva aposta fora enquanto perde espaço aqui
A Eneva assinou o memorando com a Halliburton no mesmo mês em que perdeu uma disputa regulatória no Brasil. A Aneel rejeitou, por 2 votos a 5, uma proposta que daria mais flexibilidade a 1,2 gigawatt de usinas termelétricas da empresa.
A proposta rejeitada previa economia de R$ 1,7 bilhão a R$ 3,2 bilhão para o consumidor até 2030. A câmara de consenso do Tribunal de Contas da União encerrou a negociação logo depois da decisão da Aneel.
Foi a segunda derrota da empresa em pouco mais de um ano.
Em 2024, a Eneva já havia perdido para a concorrente Âmbar Energia na disputa pelos ativos termelétricos vendidos pela Eletrobras.
A entrada da Eneva na Venezuela começou a ser desenhada em setembro, logo após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.
O avanço no exterior ocorre enquanto a empresa disputa espaço no mercado termelétrico brasileiro.
A presidente interina Delcy Rodríguez, que comanda o país após a captura de Maduro, promete consolidar a Venezuela como potência gasífera. Ela também negocia energia e dívida direto com os americanos.
O que acontece agora
O gasoduto Antonio Ricaurte segue sem data de reabertura. O memorando entre Eneva e Halliburton ainda não avançou para aquisição de campos ou concessão formal na Venezuela.































