A deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP), reeleita no 1º turno, foi a candidata mulher mais atacada nas redes nas eleições de 2026. O observatório MonitorA identificou 110 ataques contra ela entre 1º e 4 de outubro, 82% de conteúdo transfóbico.

O MonitorA é uma parceria entre o InternetLab, o Núcleo Jornalismo e o Instituto Democracia em Xeque. A pesquisa analisou 2.202 comentários publicados em perfis de 143 candidatas no X, no YouTube e no TikTok.

O levantamento usou um banco de 321 termos para separar insultos de ataques discriminatórios.

O X concentrou a maior parte do conteúdo agressivo, com 557 ocorrências, contra 115 no YouTube e só 6 no TikTok.

Quatro candidatas reúnem a maior parte dos comentários agressivos identificados no levantamento: Simone Tebet (PSB), Érika Hilton (PSOL), Soraya Thronicke (PSB) e Marina Silva (Rede). Juntas, segundo o Núcleo Jornalismo, parceiro da pesquisa, elas concentram 79% dos ataques mapeados no X.

A concentração em quatro nomes mostra que a violência política de gênero tem alvos recorrentes, não dispersão aleatória entre as 143 candidatas monitoradas. O tipo de ofensa também varia por candidata, e o padrão se repete desde o 1º turno.

Que tipo de ataque cada candidata recebeu?

Cada candidata recebeu um tipo predominante de ofensa. Contra Érika Hilton, 82% dos ataques eram transfóbicos, com uso de pronomes masculinos e do nome morto da deputada. Contra Marina Silva, 36,5% tinham cunho etarista, com termos como "múmia" e "dinossauro da pré-história".

Contra Simone Tebet, prevaleceram ofensas misóginas, incluindo acusações sexualizadas sobre sua trajetória política.

O padrão de violência política de gênero já havia sido mapeado em levantamento anterior, que mostrou alta de 380% nos casos de violência política de gênero no país, com liderança de SP, PR e MG.

Quanto pesa a inteligência artificial nos ataques?

A inteligência artificial apareceu em 25% das imagens ofensivas dirigidas a candidatas no X, de um total de 9.888 imagens avaliadas em comentários de 132 perfis. O Tribunal Superior Eleitoral proíbe o uso de IA para disseminar violência política de gênero.

Às vésperas do 2º turno, o TSE já havia reunido Meta, Google e TikTok para conter deepfakes, mas o levantamento do MonitorA não aponta fiscalização específica sobre imagens ofensivas geradas por IA contra candidatas.

Publicidade

O que acontece com os ataques depois da eleição?

A maior parte dos comentários ofensivos segue no ar. Segundo o Núcleo Jornalismo, 98% de 1.101 comentários ofensivos contra as 143 candidatas continuavam ativos em outubro, e só 18 dos 1.270 comentários monitorados haviam saído do ar até 15 de outubro.

Das contas que tiveram conteúdo removido, dez estavam suspensas, mas não é possível saber se a suspensão partiu de ação da própria plataforma ou de denúncia de usuários.

Uma das candidatas do levantamento, Simone Tebet, já acionou a Justiça Eleitoral e o Ministério Público contra um autor de ofensas durante a campanha.