O endividamento das famílias chegou a 50,1% da renda em agosto, recorde da série histórica. A Black Friday de 2026 deve ficar concentrada em produtos de menor valor, com bens duráveis como móveis e eletrodomésticos vendendo menos, segundo economistas ouvidos pelo Valor.

É a primeira vez que o comprometimento de renda das famílias com crédito passa de 50% desde o início da série do BC, em 2005. A dívida das famílias já havia batido recorde desde 2012 em outubro. O indicador soma dívidas acumuladas em 12 meses.

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostra 81,6% das famílias endividadas em outubro, recuo frente ao pico de 82% em julho.

Mesmo com a leve melhora, o número de famílias que não conseguem pagar as próprias contas continua alto.

Para o diretor da IEMI, Marcelo Prado, o endividamento pesa no varejo. "A disparada das importações e o fim da 'taxa das blusinhas', somados ao aumento de impostos e às incertezas futuras, completam um quadro pouco animador", disse.

O varejo restrito deve faturar R$ 296,8 bilhões em novembro, queda de 2,5% frente aos R$ 304,4 bilhões de 2025, segundo estudo da IEMI baseado em dados do IBGE. No acumulado do ano, porém, a expectativa é de alta de 0,9%, a R$ 3,43 trilhões.

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O outro lado: o e-commerce ainda cresce

Enquanto o varejo em geral recua, o comércio eletrônico projeta crescimento na Black Friday. A Confi, em parceria com a E-Commerce Brasil, estima R$ 13,3 bilhões em vendas entre 26 e 29 de novembro, alta de 20,7% sobre 2025.

Para Diego Souza, gerente de e-commerce da AKR Brands, o desconto isolado não garante venda. "O desconto, isoladamente, não garante a conversão: se a oferta não for competitiva, o cliente pode adiar a compra", afirma.

Mesmo desconfiados, 62% dos brasileiros devem comprar na Black Friday, aponta outro levantamento.

Pesquisa da CNDL e do SPC Brasil mostra que sete em cada dez consumidores vão usar a Black Friday para comprar presentes de Natal, e 82% pesquisam preços antes de comprar. A data deixou de ser só desconto: virou também estratégia de orçamento familiar.

O ponto em aberto

O contraste entre o varejo físico recuando e o e-commerce crescendo mostra um consumidor que não parou de comprar, mas mudou onde e como compra. Falta saber se o comportamento resiste até dezembro, quando o 13º salário e as dívidas acumuladas chegam juntos.