A China deve comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos por ano entre 2026 e 2028, segundo acordo fechado em maio. A medida ameaça reduzir o espaço do Brasil no maior mercado do grão, hoje responsável por 75% das exportações brasileiras.

O acordo prevê também que a China compre pelo menos US$ 17 bilhões (R$ 86,1 bilhões) por ano em produtos agrícolas americanos. A medida veio após Donald Trump voltar de uma cúpula em Pequim.

A cúpula buscou amenizar o impacto do próprio tarifaço que Trump havia imposto à China. Em resposta, os chineses impuseram taxa adicional de mais de 20% sobre produtos americanos, incluindo a soja.

Segundo a Associação de Soja dos EUA (ASA), a taxa tornou o grão americano mais caro que o produzido na América Latina. As exportações dos EUA para a China caíram 50% em um ano, com queda de 40% nos preços.

Mesmo assim, a alta de 80% na soja americana vendida à China já vinha apertando o produtor brasileiro nas últimas semanas, antes mesmo do acordo valer por completo.

Os três riscos para o produtor brasileiro

Especialistas ouvidos pelo g1 apontam três riscos à dependência do mercado chinês: a volta das compras de soja americana, o esforço da China para produzir mais internamente e a queda da população chinesa, que deve reduzir o consumo de proteína.

Segundo a consultoria Systemiq, uma contração da demanda chinesa pode derrubar preços e receitas de exportação ao mesmo tempo. Os efeitos em cascata atingiriam a renda dos produtores, o valor das terras, o emprego no campo e a infraestrutura de processamento.

Publicidade

Em outubro, a China já havia reduzido a importação de soja em 7,7% em meio à disputa com o Brasil. Por isso, especialistas recomendam que o setor evite ampliar a área plantada e invista em processar o grão para agregar valor.

Apesar do risco, o volume negociado com a China segue batendo recorde. Em junho, o país importou 13,55 milhões de toneladas de soja, alta de 10,5% ante o mesmo mês de 2025, com forte concentração no produto brasileiro.

Entre janeiro e maio, a China absorveu 70% de toda a soja exportada pelo Brasil, num cenário em que a soja brasileira ganhou espaço na China com o acordo dos EUA parado.

A China também já antecipou a compra de 9,04 milhões de toneladas da safra brasileira 2026/27, mesmo antes da colheita. Todo esse volume é soja do Brasil.

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) reduziu a projeção de exportação do Brasil em 2026 para 113,9 milhões de toneladas. Ainda assim, o volume marcaria recorde frente às 108,18 milhões de toneladas de 2025.

"Não vamos escolher lado entre China e Estados Unidos", afirmou o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, ao defender a diversificação de mercados para reduzir a dependência brasileira de um único comprador.

Fávaro diz que o Brasil deve chegar a 500 novos mercados agrícolas até o fim de 2026, somando-se aos 700 abertos entre 2023 e 2026. A aposta do mercado é que a fatia chinesa suba dos atuais 75% para até 80%.

O que acontece agora

Parte da safra 2026/27 já foi negociada com a China antes mesmo da colheita, e deve seguir ditando o ritmo dos embarques brasileiros. O governo aposta na abertura de novos mercados enquanto aguarda se os EUA cumprem a meta de comprar soja até 2028.