Os ativos problemáticos do crédito às famílias atingiram o maior nível desde 2012 em quase todas as modalidades, informou o Banco Central nesta terça-feira (27). A inadimplência é o principal motor da alta, que já soma 9,2% da carteira de pessoas físicas.

São créditos com mais de 90 dias de atraso ou com indícios de que não serão pagos integralmente. O indicador chegou a 9,3% em maio, pico da série, bem acima dos 6,3% do fundo histórico, registrado em 2021.

Quatro linhas bateram recorde da série no 1º semestre: cartão de crédito (12,7%), crédito rural (10,3%), veículos (8,5%) e consignado (5,0%). O crédito pessoal não consignado segue o mais caro de se pagar em atraso, com taxa de 14,9%.

O comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou ao maior nível em 21 anos, segundo o BC, mesmo com desemprego em queda e salário médio em alta. Em junho, 20,3 milhões de pessoas eram consideradas "endividadas de risco", 75% a mais que em 2021.

O que fez os ativos problemáticos subirem agora?

Parte do aumento é efeito contábil. Desde 2025, a Resolução 4.966 deixou a cargo dos bancos decidir quando dar uma dívida como perdida, o que faz as operações em atraso ficarem mais tempo nos balanços.

Segundo o BC, essa mudança explica cerca de 45% da alta observada desde dezembro de 2024, mas a inadimplência teria subido de qualquer forma, mesmo sem a nova regra.

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O avanço das apostas online, alvo de disputa judicial sobre a proibição no STF, também é citado como fator de pressão sobre o orçamento das famílias.

A Confederação Nacional do Comércio mediu em julho o maior endividamento da série histórica da Peic, pesquisa que mede o tema desde 2010: 82% das famílias endividadas. Em setembro, o indicador recuou pela 1ª vez no ano, para 81,7%, com a inadimplência caindo a 29,6%.

O Idec, instituto de defesa do consumidor, critica a resposta do governo ao problema.

Uma política pública construída às pressas, sem debate amplo com a sociedade (...) tende a reproduzir limitações já conhecidas.

Para a entidade, o novo programa de renegociação repete o padrão do Desenrola Brasil anterior (2023/2024).

O efeito sobre a inadimplência foi, segundo o Idec, limitado e de curta duração, porque atuou só no estoque de dívidas, sem mudar a dinâmica que leva famílias a se endividar de novo.

O novo Desenrola 3.0 passou a comprar a dívida diretamente dos bancos, mudança de estratégia em relação às edições anteriores. O próprio BC já havia alertado que a dívida no cartão de crédito pode dobrar em 8 meses sem pagamento.

O ponto em aberto

O Idec vê risco de o novo desenho repetir o padrão anterior: aliviar o estoque de dívidas sem mudar o que leva famílias a se endividar de novo.

Falta saber se comprar a dívida direto dos bancos resolve esse ponto, ou se o endividamento recorde volta a subir assim que a renegociação atual se esgotar.