O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse, na quinta-feira (5 de novembro), que o Brasil precisa de "responsabilidade fiscal" para atrair investimento estrangeiro. A declaração veio durante a 1ª reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos.

Ela não veio acompanhada de nenhuma medida concreta.

O que Lula disse, e o que ficou de fora?

"Se quisermos atrair capital, temos que ter seriedade", disse o presidente, defendendo que o investidor só aplica dinheiro onde enxerga retorno junto com estabilidade.

É por isso que nós temos que ter responsabilidade jurídica, é por isso que nós temos que ter responsabilidade fiscal. Ninguém vai querer vir fazer investimento numa economia totalmente desordenada, disse Lula, na reunião do Conselho de Minerais Críticos.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que nenhuma medida de corte foi definida no encontro. Segundo o governo, o levantamento fiscal só será apresentado depois que Lula voltar da COP31, na Turquia.

O que o mercado vê que o discurso não mostra?

Os números ajudam a explicar o ceticismo. O Banco Central mantém a Selic em 13,75%, e a projeção para o IPCA de 2026 está em 5,22%, acima do teto da meta.

Desde a reeleição de Lula, em 25 de outubro, investidores estrangeiros retiraram R$ 8,4 bilhões da Bolsa brasileira. É um sinal de desconfiança que nenhum discurso, sozinho, reverte.

Publicidade

O diretor-executivo da consultoria Eurasia Group, Christopher Garman, deu a chave para entender essa distância, em entrevista ao programa WW.

"Não existe um debate de corte de gasto", afirmou. "O que existe é um debate de implementar medidas para tentar reduzir o ritmo do aumento do gasto", completou.

Segundo Garman, a ideia em discussão é uma versão da proposta que o ex-ministro Fernando Haddad já havia colocado na mesa dois anos atrás: mudar as regras de indexação de saúde, educação e os limites do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

À época, as medidas foram consideradas impopulares e não avançaram.

A resistência tem endereço interno. O próprio Durigan já vinha alertando que os juros altos pressionam a dívida pública, mas Lula enfrenta pressão da ala política do Planalto para não legitimar o que esse grupo chama de "agenda do tesouraço".

A pressão seria tão forte que a própria equipe econômica evitaria a expressão "ajuste fiscal", preferindo termos como "racionalização", "pente fino" e "revisões" para descrever o mesmo movimento.

O ponto em aberto

Garman avalia que, se o governo sinalizar mais controle sobre o gasto, pode haver algum alívio no câmbio e na curva de juros futuros. Mesmo assim, a correção tende a ser insuficiente diante do tamanho do problema fiscal.

Falta saber se o levantamento prometido para depois da Turquia vai conter números, prazos e a palavra que a ala política do governo tenta evitar.