A intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, na terça-feira (3 de novembro), deixou brasileiros sem acesso às próprias contas. Dos cerca de 270 mil brasileiros que vivem no país, parte perdeu acesso a salário, aluguel e contas básicas da casa.

A estudante de medicina Camila Brito, de Foz do Iguaçu (PR), mora em Assunção. "É uma situação muito complicada acordar e não ter acesso nenhum ao seu próprio dinheiro, ainda mais no dia seguinte ao tradicional dia de pagamento dos salários", diz Camila.

O que resta agora é esperar que os valores sejam desbloqueados o mais rápido possível.

A médica acreana Vanessa Monteiro, moradora de Ciudad del Este, conseguiu pagar o aluguel antes do bloqueio. Mas ficou sem acesso ao dinheiro reservado para as contas de casa, como a de energia.

"É um dinheiro que a gente já espera, para poder pagar as contas e, do nada, fica preso e não tem mais acesso", diz Vanessa.

Renata de Brito, 44 anos, dona de uma lanchonete em Hernandarias, diz estar preocupada com o próprio negócio e cogita realocar recursos que ainda recebe no Brasil.

Já a empresária paulista Erika Silva, 41, teve valor pequeno retido no banco. Ela diz que não pretende deixar o Paraguai, porque considera a situação econômica no Brasil pior.

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Quem é o dono do banco por trás da crise

O Ueno Bank pertence ao empresário paraguaio Federico Miguel Vázquez Villasanti, de 36 anos, que preside o Grupo Vázquez e controla 28 empresas em 6 setores. O banco digital sozinho respondia por cerca de 59% do Ebitda do conglomerado.

Segundo o Banco Central do Paraguai (BCP), o procedimento de resolução começou depois que a Superintendência de Bancos constatou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido por lei.

A queda ocorreu após ajustes nos balanços, feitos durante um processo de regularização do banco. Em dezembro de 2025, o Ueno era o 5º maior banco privado do país, com 8,9% dos depósitos do sistema e 2,9 milhões de clientes.

Investigações do Ministério Público paraguaio apontam mais de US$ 146 milhões em empréstimos irregulares a empresas ligadas ao próprio grupo controlador. Vázquez está entre as 27 pessoas indiciadas até 5 de novembro.

O banco já havia travado as contas de quase 3 milhões de clientes dois dias antes.

A crise também colocou o presidente Santiago Peña no centro das atenções; ele foi acionista do grupo controlador até março de 2025 e agora enfrenta um processo de impeachment, com sessão marcada para esta sexta-feira (6 de novembro).

O que acontece agora

O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai cobre até 228 milhões de guaranis por correntista, o equivalente a cerca de R$ 211 mil dentro do limite legal. O BCP ainda avalia se poderá cobrir valores acima desse teto, segundo apuração da BBC Brasil.

O governo paraguaio soma 850 milhões de dólares em recursos públicos retidos no banco, cerca de 2% do PIB do país. O Itamaraty trata a crise política que atinge o Paraguai como assunto interno do país vizinho, sem medida específica anunciada para os brasileiros atingidos.