O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma nova rodada de negociação para convencer a China a investir no Fundo das Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). O mecanismo, criado pelo Brasil, já soma US$ 7,8 bilhões em caixa.

Segundo a Folha de S.Paulo, Pequim evita o aporte.

Pequim argumenta que países desenvolvidos devem ser os principais financiadores da preservação ambiental. Fontes ouvidas pela Folha e familiarizadas com as negociações dizem que o governo brasileiro aposta no efeito cascata de uma doação chinesa sobre outros países.

O compromisso mais recente ao fundo veio da Holanda, que anunciou US$ 500 milhões em outubro, um dia depois da reeleição de Lula à Presidência.

Hoje contribuem para o TFFF o Brasil, a Indonésia, a Noruega, a Alemanha, a França, Luxemburgo e o Reino Unido, além de investidores privados. A meta de longo prazo é alcançar US$ 125 bilhões.

Desse total, 20% viriam de fundos soberanos ou entidades filantrópicas. Esse montante funcionaria como garantia para atrair o restante do capital do mercado privado ao longo dos 40 anos de vida do fundo.

Lula discursa em evento sobre a queda do desmatamento na Amazônia
Lula discursa em evento sobre a queda do desmatamento na Amazônia, tema central do fundo que o governo quer ver turbinado por um aporte chinês (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por que a China resiste a entrar no fundo?

A China se apoia no princípio das \"responsabilidades comuns porém diferenciadas\". A regra diz que países desenvolvidos devem liderar o financiamento climático por terem enriquecido historicamente com a queima de combustíveis fósseis.

Publicidade

O conceito foi incorporado à Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima e orienta boa parte da diplomacia chinesa no tema ambiental.

Na COP30, em Belém, o porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, chegou a declarar à Folha que o país \"acolhe\" a iniciativa.

Apelamos aos países desenvolvidos para que forneçam apoio financeiro suficiente aos países em desenvolvimento, a fim de reduzir o desmatamento e a degradação das florestas tropicais, afirmou Guo Jiakun, porta-voz da chancelaria chinesa.

Mesmo assim, a China não mencionou qualquer valor de aporte. O presidente Xi Jinping já parabenizou Lula pela reeleição, o que o governo brasileiro lê como sinal de boa vontade bilateral.

O contra-argumento do Brasil é que o TFFF não foi desenhado para receber dinheiro só de nações já desenvolvidas. Lula foi o primeiro chefe de Estado a anunciar um aporte ao mecanismo, de US$ 1 bilhão.

A resistência chinesa não é novidade. Um ano antes, em novembro de 2025, o fundo tinha apenas US$ 5,58 bilhões em compromissos e reunia menos signatários — o Reino Unido, hoje entre os doadores, ainda estava fora.

À época, o Itamaraty e a Presidência já contestavam quem dava a China como descartada. A leitura do governo brasileiro é que a porta com Pequim segue aberta, mesmo sem valor prometido.

O que acontece agora

O documento com as regras definitivas do fundo será apresentado na segunda-feira (9 de novembro), durante a COP31, na Turquia. É nesse evento que o governo brasileiro deve intensificar a pressão sobre delegações estrangeiras.

A expectativa inicial do TFFF era reunir US$ 10 bilhões em compromissos até dezembro de 2026. Lula embarca para a Turquia na primeira agenda internacional após a reeleição, com o fundo florestal entre os temas da pauta bilateral.