A economia da Argentina provavelmente entrou em recessão no terceiro trimestre de 2026, segundo economistas ouvidos pelo Valor e pela Folha, a um ano da eleição presidencial de outubro de 2027, quando o presidente Javier Milei deve tentar a reeleição.

Cerca de 32,3 mil empresas fecharam desde dezembro de 2023, aponta o centro de estudos Fundar. O país já havia entrado em recessão técnica, segundo o índice oficial de atividade divulgado em outubro.

O consumo das famílias responde por cerca de dois terços do PIB argentino, e qualquer retração de gastos pesa sobre toda a economia. Nos primeiros nove meses de 2026, o consumo caiu 2,7% ante o mesmo período de 2025, segundo a consultoria Scentia.

Na fábrica de meias Eseka, em Buenos Aires, mais da metade das máquinas de malharia circular está parada. A empresa, dos irmãos Kuchikian, teve prejuízo no ano passado, e as vendas caíram cerca de 40% desde que Milei assumiu o governo.

"A situação é crítica", disse Ricardo Kuchikian. "O consumo caiu muito acentuadamente nos últimos três anos."

O que isso muda para o Brasil

A recessão argentina já aparece na balança comercial: as exportações do Brasil ao país vizinho caíram 19,4% no primeiro semestre de 2026, para US$ 7,4 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

Publicidade

A fatia brasileira nas importações argentinas caiu de 5,5% para 4% em um ano. A China ultrapassou o Brasil como maior fornecedor da Argentina: US$ 7,98 bilhões em importações chinesas contra US$ 7,35 bilhões vindos do Brasil, segundo o instituto de estatística argentino Indec.

O setor automotivo foi o mais afetado: as exportações brasileiras de carros de passeio para a Argentina caíram 28,2%, e as de autopeças, 28,7%. A importação argentina de autopeças chinesas, por sua vez, subiu 80,9% em 2025, segundo a associação de revendedores Acara.

O Brasil perdeu, pela primeira vez em anos, a liderança como fornecedor da Argentina para a China, reflexo de como a crise argentina também reorganiza o comércio da região.

As medidas de Milei derrubaram a inflação de 200% para 30% ao ano, mas a pobreza voltou a quase um terço da população, após cair, em 2025, ao menor nível em oito anos. O avanço da pobreza mostra o custo social do ajuste.

O que acontece agora

Na política argentina, o deputado André Janones (Rede-MG) se reuniu na segunda-feira (2 de novembro), em Buenos Aires, com Sergio Massa, ex-ministro derrotado por Milei em 2023.

Massa é pré-candidato peronista para 2027, assim como o governador Axel Kicillof. Janones liderou a comunicação digital da campanha de reeleição de Lula e, na mesma segunda-feira, confirmou que recusou um ministério no novo governo.

Lula venceu a eleição presidencial em 25 de outubro e agradeceu a Janones.

O presidente convidou Trump e Milei para a posse, mesmo sem o argentino reconhecer a vitória. O desfecho da disputa peronista, entre Massa e Kicillof, deve se desenhar ao longo de 2027. Milei tentará reverter a recessão antes de concorrer à reeleição.