O senador Flávio Bolsonaro (PL) entrou nos Estados Unidos na quarta-feira (28 de outubro) com uma liberdade condicional (classe "parole"), modalidade que o Serviço de Imigração dos EUA (USCIS) nega em quase 85% dos pedidos analisados neste ano fiscal, com 32,3 mil pedidos represados.

Flávio deixou o Brasil na terça-feira (27 de outubro), dois dias depois de perder a disputa do 2º turno presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Um dia antes, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia determinado a entrega dos passaportes do senador. Como ele não cumpriu o prazo, a Polícia Federal cancelou os documentos.

A travessia até a fronteira com a Argentina reuniu, segundo o Fantástico, um ex-agente de inteligência de Israel que viajou no mesmo veículo horas antes do voo rumo a Miami, onde o senador desembarcou na quarta-feira (28 de outubro), após escala no Equador.

Segundo o Valor, que teve acesso a dados do USCIS, a classe de admissão usada por Flávio tinha 32.373 pedidos pendentes neste ano fiscal (iniciado em outubro de 2025) até junho, com quase 85% dos formulários analisados no período negados.

No mesmo recorte do ano fiscal anterior, a fila era de 36.101 pedidos, com taxa de reprovação de 81,6%. Dois anos atrás, ainda no governo de Joe Biden, a fila tinha apenas 2.946 pedidos, e mais da metade, 56,4%, era aprovada.

Advogados dos Estados Unidos consultados pelo Valor chamam esse tipo de entrada de "a exceção da exceção". "Não tenho conhecimento de nenhum outro caso notório no passado recente", disse um dos advogados, que pediu para não ser identificado.

Flávio entrou no país apresentando os passaportes diplomático e brasileiro, ambos cancelados pela Polícia Federal. A apreensão dos documentos gerou críticas dentro e fora do STF na semana passada.

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Segundo os advogados, passaporte e visto têm natureza diferente: o documento cancelado não invalida automaticamente a autorização de entrada vinculada a ele.

Por que a defesa de Flávio tenta reverter a saída do Brasil?

A defesa pede à Justiça que desfaça a proibição de viagem que levou à fuga. Em três pedidos apresentados ao STF na sexta-feira (30 de outubro), os advogados pediram a saída de Moraes do caso, a devolução dos passaportes e alegaram suspeição do ministro.

A alegação de suspeição contra Moraes cita uma aeronave e empresas ligadas ao escritório de advocacia da mulher do ministro e ao Banco Master. Enquanto tenta ficar nos EUA, o senador também busca reverter no Brasil a decisão que o levou a fugir.

"Fui surpreendido" com a viagem do senador aos Estados Unidos, disse o advogado Tracy Reinaldet à CNN Brasil, acrescentando que havia combinado a entrega do passaporte com Flávio antes da fuga.

O Palácio do Planalto e o Itamaraty adotam cautela em público. Fontes diplomáticas tratam o caso como de jurisdição exclusiva do Judiciário, em que o Executivo não interfere.

O governo evita se manifestar, como ocorreu com outros fugitivos da Justiça brasileira, para não tensionar a relação com os Estados Unidos, que já autorizaram a permanência do senador no país.

No domingo (1º de novembro), Flávio fez a primeira aparição pública desde a fuga: foi a um culto evangélico em Coral Springs, na Flórida, ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro, da mulher Fernanda e da cunhada Heloísa.

O culto foi na Igreja Celeiro, congregação com sede em São Paulo que promove encontros para brasileiros na cidade da Flórida desde janeiro.

O que acontece agora

O Supremo Tribunal Federal ainda não decidiu os três pedidos protocolados pela defesa. Até 1º de novembro, não havia confirmação pública de posição de Moraes ou de outro ministro sobre a remoção do relator, a devolução dos passaportes ou a alegação de suspeição.