A safra brasileira de grãos 2025/26 deve fechar em 360,8 milhões de toneladas, recorde histórico, segundo a Conab. O volume recorde, porém, convive com a pior sequência de inadimplência já registrada entre produtores rurais, que chegou a 8,8% no primeiro trimestre deste ano, segundo a Serasa Experian.

A produção é 2,4% maior que a da safra anterior, um acréscimo de 8,5 milhões de toneladas. Há recorde em quatro culturas: soja, milho, algodão e sorgo.

Por que mais grão não significa mais lucro

Segundo a FGV, o ciclo 2025/26 é "desafiador" para a margem do produtor. Os custos de produção devem subir 6,1%, puxados sobretudo pelos fertilizantes, dado da própria Conab.

A safra 2023/24 foi considerada a pior da história em termos de margem. A 2024/25 trouxe recuperação, com queda de 18,3% no custo operacional efetivo, mas o novo ciclo reverte parte desse alívio.

Em Sorriso (MT), a rentabilidade projetada caiu de R$ 3.080 por hectare na safra 2024/25 para R$ 1.946 na atual, queda de cerca de 37%, segundo projeção do Itaú BBA de setembro de 2025.

A consultoria projetava a saca da soja abaixo de R$ 100 em regiões como Sorriso, pressionada pelo câmbio valorizado, com o custo de produção já em torno de R$ 133 a saca.

O reflexo no crédito rural

A inadimplência rural soma agora cinco trimestres seguidos de alta: 7,6% no início de 2025, 7,9%, 8%, 8,2% e 8,8% nos três primeiros meses de 2026, aponta a Serasa Experian.

O Amapá tem a maior taxa entre os estados, 21,2% da população rural inadimplente. O Rio Grande do Sul tem a menor, 5,8%.

A pontuação média de crédito dos produtores rurais, o "Agro Score" calculado pela Serasa, caiu de 606 para 591 pontos em um ano, o que indica maior risco percebido pelo mercado financeiro.

Quem sente a fartura na prática

A safra recorde favorece quem compra grão: exportadoras, indústria e, por tabela, o consumidor final, que se beneficia da oferta abundante. Quem planta é que sente o preço mais baixo bater direto na conta, num ano em que o custo de produzir também subiu.