O Nobel de Medicina 2026 foi para o americano Karl Deisseroth e os alemães Peter Hegemann e Georg Nagel, pela optogenética, técnica que usa luz para controlar neurônios no cérebro. O anúncio, nesta segunda-feira (5), surpreendeu quem apostava no hormônio por trás do Ozempic.

Véspera do anúncio, o executivo da Clarivate David Pendlebury apostava no peptídeo GLP-1, hoje famoso por medicamentos emagrecedores que já viraram fenômeno de consumo. "Eu colocaria o GLP-1 no topo da lista, por seu enorme impacto clínico", disse.

O comitê do Instituto Karolinska escolheu outro caminho. "Esse método permite ativar ou desativar a atividade de células nervosas individuais em um cérebro vivo", explicou Thomas Perlmann, secretário-geral da Assembleia Nobel.

A descoberta nasceu em laboratório nos anos 1990, quando Hegemann investigou como uma alga reage à luz em meio milissegundo e levantou a hipótese de uma proteína que capta luz e funciona como canal iônico.

Nagel testou a ideia e achou a canalrodopsina-2, sensível à luz. Em 2003, a dupla mostrou que a proteína funcionava em células humanas. Dois anos depois, Deisseroth aplicou a técnica em neurônios de ratos, e o método ganhou o nome de optogenética em 2006.

Por que a técnica vale um Nobel

A optogenética virou ferramenta padrão para estudar o cérebro vivo: pesquisadores já usam modelos animais para investigar esquizofrenia, Alzheimer, Parkinson, epilepsia e dependência química, condições com opções de tratamento ainda limitadas.

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No Brasil, grupos de pesquisa também vêm testando a técnica, incluindo estudos sobre seu uso no controle de sintomas psiquiátricos resistentes a tratamento, como depressão grave e transtorno obsessivo-compulsivo.

Fora do laboratório, pesquisadores já tentam usar a optogenética para restaurar a visão de pessoas com deficiência visual, segundo o próprio comitê Nobel. Desafios éticos e técnicos, porém, ainda limitam a aplicação clínica em larga escala.

O prêmio soma 12 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 6,8 milhões, dividido entre os três cientistas, de 54, 71 e 73 anos. Na mesma semana, o Nobel da Paz gerou repercussão, com a laureada cobrando leis contra o avanço da IA.

O ponto em aberto

A optogenética completa duas décadas como ferramenta de laboratório sem ainda ter virado tratamento aprovado em larga escala.

O Nobel reconhece a técnica que mudou a forma de estudar o cérebro, mas a travessia do laboratório para o consultório segue incompleta. Segue sem data o momento em que ela deixará de ser instrumento de pesquisa para virar remédio.