O ex-pesquisador de segurança da Meta Jason Sattizahn afirmou, em depoimento tornado público em 18 de agosto, que a empresa deu "ordens explícitas" para apagar dados sobre casos de abuso sexual infantil nas suas plataformas. O relato integra um processo movido por procuradores-gerais dos Estados Unidos contra a Meta, na Justiça do Novo México.

Sattizahn trabalhou como pesquisador de integridade e segurança na unidade de realidade virtual da empresa. Segundo ele, a orientação era apagar dados de investigações internas sobre exploração sexual de menores.

Um dos casos citados é de março de 2023, na Alemanha, e envolvia uma criança com menos de dez anos.

Apagar e eliminar de forma absoluta todos os dados

Não há, até a publicação desta matéria, decisão judicial sobre se a ordem existiu como Sattizahn descreve.

O que a Meta responde

A empresa contestou a legalidade da divulgação do depoimento, alegando que as comunicações citadas envolviam advogados e estariam protegidas por sigilo.

Funcionárias apontadas nos autos disseram que as recomendações internas buscavam apenas "garantir o respeito às leis locais de proteção de dados". Qualquer pesquisa sobre verificação de idade, segundo o depoimento, passou a envolver forte interferência do time jurídico.

O caso remonta a 2021, quando a ex-funcionária Frances Haugen vazou relatórios internos da empresa. Depois disso, a Meta passou a tratar as investigações sobre danos a menores como risco para a marca, segundo o depoimento.

Um acordo bilionário fechado dias depois

O grupo de procuradores-gerais que processa a Meta nos EUA cresceu de 29 para 52 estados e fechou, em 26 de agosto, um acordo bilionário sobre danos a adolescentes no Facebook e no Instagram.

O valor será pago ao longo de dez anos, com limite de uso diário e bloqueio noturno para menores. Já o depoimento de Sattizahn trata de uma questão diferente: se a empresa destruiu provas sobre exploração sexual infantil enquanto o litígio corria.

A Meta removeu mais de 36 milhões de publicações com exploração sexual de menores no ano anterior. Uma reportagem da revista Wired identificou ainda mais de 50 anúncios com material de abuso, parte gerado por inteligência artificial.

O Brasil enfrenta uma versão própria do mesmo problema. A Advocacia-Geral da União processou o Discord por falhas na proteção de menores, e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados notificou 22 plataformas de IA sobre o mesmo tipo de risco.

O que acontece agora

A Meta segue contestando, na Justiça do Novo México, a legalidade da divulgação do depoimento de Sattizahn. O acordo de 26 de agosto sobre o uso das redes por adolescentes, por sua vez, ainda depende de aprovação judicial para valer.