O Departamento de Guerra dos Estados Unidos elevou para US$ 1,5 bilhão o aporte na compra da Serra Verde, a maior mineradora de terras raras do Brasil, valor US$ 250 milhões acima do planejado. A fusão com a americana USA Rare Earth deve se concluir logo após a assembleia de acionistas de 28 de agosto.

"Agradecemos o apoio estratégico e o aumento do compromisso de financiamento do governo dos EUA", disse Michael Blitzer, presidente executivo da USA Rare Earth, em comunicado que anunciou o novo aporte.

A operação começou em abril, quando a Serra Verde foi vendida à USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões.

O contrato prevê venda da produção inicial da mina Pela Ema, em Minaçu (GO), por 15 anos, a um veículo financiado por capital público e privado dos EUA.

A Serra Verde é a única produtora em escala do Brasil e a única fora da Ásia de quatro terras raras pesadas consideradas mais críticas: disprósio, térbio, neodímio e ítrio. Os minerais vão para ímãs usados em motores elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa.

O Brasil tem a 2ª maior reserva de terras raras do mundo, mas processa pouco dentro do próprio território. A mudança de rota já aparece nos números. Minaçu enviou 2 toneladas aos EUA em fevereiro, ante 678 toneladas exportadas à China em todo 2025.

O samário, 3,9% do concentrado da mina, é essencial para mísseis Tomahawk, e a China restringiu sua exportação em abril de 2025. A disputa por esse insumo coloca uma mina em Goiás no centro de uma corrida geopolítica entre EUA e China.

A partir de 2027, o Departamento de Defesa dos EUA passa a proibir a compra de ímãs fabricados na China, na Rússia, no Irã e na Coreia do Norte.

O que preocupa especialistas e parlamentares

O professor Bruno Milanez, especialista em mineração, alerta que a opacidade da cadeia de fornecimento impede o monitoramento do destino final dos minerais. Não está claro se os projetos abastecem fabricantes de armas.

Projetos de lei sobre controle estrangeiro de direitos minerários tramitam no Senado, mas seguem parados. O debate se soma a outros ativos estratégicos que mudaram de mãos recentemente, como a compra da Avibras, maior fabricante de mísseis do país.

Também segue no radar a disputa em torno da descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, tratada pelo governo como questão de soberania.

A posição do governo brasileiro

O Ministério de Minas e Energia diz que o Brasil está aberto a capital americano e de outros países, desde que respeitem a soberania nacional.

Em reunião com o presidente global da Serra Verde, o ministro Alexandre Silveira defendeu que os investimentos estrangeiros se consolidem como ativo estratégico para o país.

Segundo o ministro, isso reduziria a dependência brasileira da exportação de commodities brutas.

Em paralelo, o BNDES planeja destinar ao menos R$ 5 bilhões em financiamento a 56 projetos de minerais críticos que, juntos, somam R$ 45,8 bilhões em investimento necessário.

O que acontece agora

A assembleia da USA Rare Earth está marcada para 28 de agosto, e a fusão deve ser concluída logo depois. No Brasil, a australiana Meteoric desenvolve projeto concorrente em Poços de Caldas (MG), com produção comercial prevista para 2028.