O Ministério Público de São Paulo (MPSP) denunciou nesta quinta-feira (27) 16 homens por integrar um esquema que desviou mais de 10 milhões de litros de metanol para adulterar combustíveis entre 2017 e 2025. O empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, apontado como principal financiador, está foragido.
Segundo a denúncia do MPSP, o grupo integrava, promovia e financiava uma organização criminosa dedicada a desviar metanol, adulterar combustível e lavar dinheiro. As empresas Aster, Copape e Duvale, além da fintech BK Instituição de Pagamento, aparecem citadas no esquema.
De acordo com a apuração, "o metanol era inicialmente comprado de forma legal por empresas autorizadas", com destino declarado à produção de biodiesel, solventes ou à indústria química.
Na prática, o produto seguia para postos de gasolina da Grande São Paulo, onde entrava na composição da gasolina e do etanol vendidos ao consumidor.
A denúncia reúne elementos das operações Boyle e Carbono Oculto, que o Ministério Público chama de braço financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Deflagrada em agosto de 2025, a Carbono Oculto reuniu cerca de 1.400 agentes em oito estados, com mais de 350 alvos.
A defesa de Beto Louco diz não ter acesso aos autos, mas nega qualquer relação dele com os fatos da denúncia. O advogado Guilherme San Juan afirma que a apuração não reúne elementos que comprovem o vínculo do cliente com o PCC.
Em maio, o MPSP já havia rejeitado uma proposta de delação premiada de Beto Louco e do empresário Mohamad Hussein Moraes, o Primo.
Os dois ofereceram devolver cerca de R$ 1 bilhão aos cofres públicos em troca de redução de pena e da revogação dos mandados de prisão.
O procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, considerou a proposta insuficiente. Segundo o MPSP, os investigados omitiram detalhes sobre a lavagem e o vínculo com o PCC, e o prejuízo fiscal passa de R$ 4 bilhões, quatro vezes o valor oferecido.
O metanol é proibido como combustível no Brasil e tóxico ao ser manuseado fora do controle industrial. Pelas resoluções 807/2020 e 907/2022 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o limite tolerado na composição da gasolina e do etanol é de 0,5%.
O consumo de gasolina ou etanol fora do padrão eleva o gasto do motorista e desgasta o motor. Combustível adulterado pode fazer o carro consumir até 30% mais e corroer a bomba de combustível, a ponto de o veículo falhar ao dar partida.
Vender esse produto é crime contra o consumidor. Quem suspeitar de um posto pode procurar a ANP, o Procon ou o Idec.
O que acontece agora
A denúncia segue para a Justiça de São Paulo, que vai decidir se recebe as acusações contra os 16 denunciados e abre ação penal. Beto Louco segue foragido, e o caso avança com o restante da Carbono Oculto, que ainda apura outros alvos desde 2025.


























