A Assembleia Geral da ONU aprovou nesta sexta-feira (4) a resolução "Corrigir o Mapa", que recomenda a substituição da projeção de Mercator pela Equal Earth nos mapas-múndi. A votação, em Nova York, teve 164 votos a favor, 1 contra (Estados Unidos) e 6 abstenções.
O texto foi apresentado por Togo, com apoio da União Africana, e ataca uma distorção conhecida há séculos.
Criada em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator, a projeção mantém ângulos e direções constantes — útil para a navegação —, mas amplia visualmente os territórios mais distantes do equador.
Groenlândia e África aparecem do mesmo tamanho no mapa tradicional, quando o continente africano é cerca de 14 vezes maior na realidade.
O efeito também distorce a percepção sobre o Brasil. O país é cerca de cinco vezes maior que o Alasca em área real, mas no mapa de Mercator é o Alasca que aparece maior.
Sob a Equal Earth, a lógica se inverte. Segundo o texto da resolução, França, Estados Unidos e Rússia ficariam consideravelmente menores nas representações cartográficas, enquanto África, América Latina e Sul da Ásia passariam a ocupar o espaço proporcional ao seu tamanho real.
Por que a distorção existe?
A distorção não é erro técnico, é escolha. Segundo o professor de Engenharia Cartográfica e Agrimensura da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Vinicius Rofatto, "criamos modelos [de representação] porque a superfície real, física da Terra é extremamente irregular, complexa e dinâmica".
Toda projeção cartográfica sacrifica uma propriedade do globo para representá-lo em uma superfície plana. Existem modelos que preservam ângulos, área, distância ou direção, nunca as quatro ao mesmo tempo. A Mercator prioriza os ângulos; a Equal Earth prioriza a área.
Os Estados Unidos foram o único voto contrário. Uma diplomata americana classificou a iniciativa como um "esforço inócuo para atualizar as proporções cartográficas" na aparência, mas associado a "um projeto ideológico muito maior e mais radical" no fundo.
Assine o Resumo do dia e receba de segunda a sábado, no seu e-mail, as notícias que você não pode perder.
Sem spam — você pode cancelar quando quiser.
O ministro dos Negócios Estrangeiros de Togo, Robert Dussey, defendeu o texto em sentido oposto.
A mudança envolve "justiça cognitiva, acesso a conhecimento geográfico preciso, dignidade dos povos".
O que acontece agora
A resolução não tem força de lei. Sua adoção depende de decisão voluntária de governos, escolas, editoras de livros didáticos e das plataformas de tecnologia que produzem mapas digitais.
É a essas plataformas, especificamente, que a ONU apela para o diálogo com os Estados-membros. Não há prazo nem mecanismo de fiscalização.
Na prática, isso significa que o mapa de Mercator continua no ar em boa parte dos serviços online até que cada empresa, escola ou governo decida trocar por conta própria. Pode levar anos.
Pode não acontecer.


























